Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

A trapaça dos carbono-neutro

Parece que ser ” carbono-neutro ” está na moda. O Banco Mundial, o Vaticano, os Jogos Olímpicos, a Copa Mundial de Futebol, o Body Shop, os Rolling Stones, e uma extensa listagem de celebridades se auto- proclamam como total ou parcialmente “carbono-neutro”. Até a Mercedes Benz celebrou recentemente na Califórnia o que foi descrito como “a primeira semana da moda dos carbono-neutro do mundo”! É compreensível, portanto, que o Dicionário americano New Oxford tenha proclamado a expressão “carbono-neutro” como a Palavra do Ano de 2006.

É preciso reconhecer que ser “carbono-neutro ” pega bem- e que muitos dos acima mencionados acreditam honestamente que estão fazendo o que é certo- porque dá a impressão que “neutro” é sinônimo de não emitir nada em absoluto. Contudo, o conceito encobre um perigoso jogo de trapaças,  em que muitas das corporações que jogam estão vencendo, enquanto o clima da Terra está perdendo.

Talvez a melhor forma de “neutralizar” esse absurdo seja através da zombaria. É o que fez quem criou o site Cheatneutral (“trapaça neutral”). Eles idearam- seguindo os passos dos inventores da compensação do carbono- o conceito de compensar a trapaça. E afirmam, “Cheatneutral” compensa sua trapaça ao financiar alguém para que seja fiel e NÃO trapaceie. Isso neutraliza as emoções doloridas e inquietantes e permite que você fique com a consciência leve.”

A pretensão de “neutralizar” as emissões de carbono é tão absurda quanto isso. Os vôos carbono-neutro talvez sejam a melhor forma de mostrar que se trata de um jogo de trapaças. Os aviões não voam com recursos  renováveis; funcionam a petróleo. Ao queimar, para possibilitar que os aviões voem, o carbono contido no combustível é liberado na atmosfera e nunca mais retorna a seu local de armazenagem originário no subsolo. Esse carbono nunca poderá ser neutralizado; se juntará ao crescente volume de carbono atmosférico que está destruindo o clima do Planeta.

Contudo, os engenhosos marqueteiros do carbono têm bolado uma forma de fazer dinheiro com isso. Para as pessoas que não querem se sentir culpadas ou para as empresas que visam promover-se como “respeitosas do clima”, há um número cada vez maior de companhias dispostas a providenciar- em troca de algum dinheiro-  uma solução.

Por exemplo, a empresa britânica Carbon Neutral afirma que, “Voar é uma das causas que agrava mais rapidamente a mudança climática, devido ao carbono emitido.” Não obstante, quem quer que possa se sentir preocupado com isso fica logo com a garantia de que é possível “Neutralizar suas emissões de carbono com nossos Vôos carbono-neutro, e fazer uma viagem verde.” Dependendo do percurso do vôo, “neutralizar” seu vôo tem um custo que oscila entre 9 e 106 dólares. Além de liberar você de sua culpa, a companhia também providencia aos compradores um “Certificado com uma dedicação especial se você quiser”, um “Mapa colorido e informações sobre ‘seus’ projetos”, uma “Etiqueta de bagagem feita em couro reciclado” e uma “Pasta cor creme amarrada com uma fita .” (não é piada, está no site da Carbon Neutral!).

Muitas outras empresas têm sido criadas para lucrar com a compensação do carbono. A TerraPass, Native Energy, DriveNeutral, Climate Friendly, AtmosFair, Climate Care, GreenSeat são alguns exemplos do número cada vez maior de empresas que oferecem tais serviços.

Os significados que essas empresas dão à “compensação” são diversos, oscilando desde lâmpadas eficientes até plantações de árvores. Nesse jogo de trapaças, a última questão é o que mais nos preocupa. Um relatório recente (State of the Voluntary Carbon Market 2007) explica que alguns projetos são mais “carismáticos” que outros, e acrescenta que “As árvores são uma área do seqüestro de carbono que todo o mundo entende, até as crianças o entendem… a população também.”

A despeito de seu “carisma”, as árvores provaram que são problemáticas e isso levou a que algumas instituições em prol da neutralidade em carbono se desligassem de tais programas: “Devido aos muitos problemas com os projetos de plantação de árvores, a Fundação David Suzuki só compra compensações de projetos de energia renovável e de energia eficiente.” O Body Shop explica que, “Em 2006, compensamos nossas viagens aéreas a negócios … ao financiarmos projetos que não incluem a plantação de árvores”. A empresa Cleaner Climate- que fornece serviços carbono-neutro para a Adobe- explica que “não planta árvores” porque “a ciência que está por trás do seqüestro de carbono não está suficientemente aprimorada” e porque está “compromissada com ter um impacto positivo nas comunidades locais”-; dessa forma, deixa implícito que as plantações têm um impacto negativo.

A preocupação sobre a compensação referida às plantações de árvores não tem surgido por acaso. É o resultado de anos de fazer campanhas contra as plantações de monoculturas de árvores em longa escala e documentar seus impactos e as lutas contra elas. Além disso, alguns casos especialmente negativos de plantações para compensação de carbono (tais como os da Fundação holandesa FACE no Equador e na Uganda) têm sido investigados e amplamente explicitados, o que obriga às empresas de comércio de carbono a buscar investimentos de menor risco.

Esta preocupação cada vez maior pelas plantações é uma notícia muito boa para as comunidades locais que podem ter sofrido os impactos das plantações para compensação de carbono. Contudo, implica que o florescente mercado de carbono está simplesmente se transferindo para outras áreas mais “carismáticas”. É necesario expor essa fraude. As pessoas devem entender que ser “carbono-neutro ” tem exatamente o mesmo valor que ser “trapaças-neutro”- zero- e que a verdadeira ação global para reduzir drásticamente as emissões de combustíveis fósseis é uma necessidade urgente- sem trapaças.