Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

Plantações para celulose: todos os caminhos levam a Roma

Toda vez que se usa a expressão “florestas plantadas” o conceito pode remontar-se à Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) baseada em Roma. Quanto mais é o conceito impugnando pelos povos locais e ONGs que lutam contra as plantações, mais a FAO desenvolve apoio para mantê-lo.

A razão é simples:  a FAO tem escolhido estar ao serviço das corporações do norte que se beneficiam com as plantações de árvores –particularmente do setor da celulose e do papel.  Apresentar as plantações de monoculturas de árvores disfarçadas de “florestas plantadas” tem resultado ser uma boa ferramenta de marketing que serve para esconder o desastre social e ambiental que envolvem as plantações de monoculturas de árvores de madeira rápida em grande escala.

Mas a função da FAO não pára no nível da definição. Tem estado promovendo ativamente o estabelecimento dessas plantações desde a década de 50 e continua fazendo-o.  Entre 1990-1995 até apoiou a pesquisa na China em árvores geneticamente modificadas que depois resultou na plantação massiva e descontrolada de choupos GM nesse país.

O último caso é o processo liderado pela FAO que resultou na adoção das “Diretrizes Voluntárias para o Manejo Responsável das Florestas Plantadas” que estão agora em sua etapa de implementação em nível de país.

Qual é o objetivo dessas diretrizes? Ainda antes de ler as próprias diretrizes, fica claro que estão destinadas a apoiar a expansão das plantações para a indústria da celulose. Por exemplo:

– A fotografia da capa do relatório é a de uma “Paisagem de florestas plantadas na Bahia, Brasil, cortesia da Veracel, Brasil”. Os impactos sociais e ambientais negativos de justamente as plantações da Veracel têm sido muito bem documentados e os povos locais estão fazendo campanhas contra elas.  Colocando a fotografia no relatório, a FAO está outorgando apoio a essas e outras plantações destruidoras similares que estão sendo impugnadas no sul.

– Os agradecimentos. O relatório diz que “A FAO quer agradecer seus sócios principais pela preparação dos conceitos iniciais e rascunhos”. Os sócios mencionados de associações do setor privado estão todos relacionados com a indústria da celulose e do papel “International Council for Forest and Paper Associations, Associação Brasileira de Celulose e Papel /Sociedade Brasileira de Silvicultura, American Forest and Paper Association, Confederation of European Paper Industries, Associação da Indústria Papeleira de Portugal, Japanese Paper Association/Japanese Overseas Plantation Centre for Pulpwood, Corporación Nacional de la Madera – Chile, Swedish Federation of Forest Owner’s Associations e New Zealand Private Forest Owners Association.”  Por que deveriam essas associações empresariais apoiar esse processo liderado pela FAO se não fosse porque planejam beneficiar-se com as diretrizes resultantes?

– As ausências.  Nenhuma organização do sul é mencionada nos “agradecimentos”. Como os principais críticos das plantações estão na África, na Ásia e na América Latina, isso significa que a FAO escolheu excluir vozes críticas que teriam diretrizes certamente opostas para a promoção de plantações de “madeira rápida” –que são as que a indústria da celulose precisa.

– A bibliografia:  nem sequer um documento que critique as plantações é mencionado. No caso do WRM, a FAO escolheu ignorar, não apenas os inúmeros artigos divulgados durante os passados 10 anos –baseados nos depoimentos dos povos locais dos impactos- mas também nossas constatações publicadas de pesquisas em plantações no Brasil, Camboja, Chile, Equador, Indonésia, Laos, África do Sul, Suazilândia, Tailândia, Uganda e Uruguai.  Fazer vista grossa para essas e outras evidências documentadas sobre os impactos das plantações prova a função da FAO no apoio dos interesses empresariais relacionados com as plantações.

A seguinte citação das diretrizes também é muito ilustrativa:

“Os governos deveriam criar as condições propícias para incentivar os investidores corporativos, de média e pequena escala para fazer investimentos de longo prazo em florestas plantadas e para obter um retorno favorável sobre o investimento” e “facilitar um ambiente de condições econômicas, legais e institucionais estáveis para incentivar o investimento no longo prazo…”

Isso não é novo. Muitos governos do sul já têm criado essas “condições propícias” –seguindo recomendações da FAO, do Banco Mundial, do Banco Asiático de Desenvolvimento, do Banco Latino-Americano de Desenvolvimento, das agências bilaterais como o JICA, GTZ e outras- que têm resultado em “retornos favoráveis” para as corporações da celulose e do papel e em “retornos” muito dolorosos para os povos locais e seus ambientes.

A indústria da celulose está migrando atualmente para o sul e planeja aumentar substancialmente sua capacidade de produção durante os próximos cinco anos em mais de 25 milhões toneladas. Isso significa que precisará vastas áreas de plantações de rápido crescimento para alimentar suas fábricas de pasta. Dentro desse contexto, as “Diretrizes Voluntárias para o Manejo Responsável das Florestas Plantadas” as assistirá em colocar os governos a seu serviço e em debilitar a oposição a sua expansão.

Portanto é preciso estar consciente dessa nova ameaça e opor-se à implementação dessas diretrizes em nível de país. A FAO deveria lembrar que sua missão não é promover as plantações de árvores mas –de acordo com sua página na web- “liderar os esforços internacionais para combater a fome”.

Em virtude de que o tema escolhido neste ano para o Dia Mundial da Alimentação criado pela FAO -16 de outubro- é o “Direito à Alimentação” parece ser necessário lembrar à Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação que as plantações para pasta de celulose não podem garantir “que cada menina, menino, mulher e homem tenha acesso à alimentação adequada a qualquer momento” apesar de que com certeza eles vão visar a assegurar-se que cada fábrica de celulose tenha adequado fornecimento de madeira a qualquer momento.

Lamentavelmente, ao considerar a promoção das plantações de pasta de celulose, todos os caminhos continuam levando a Roma.

(*) O relatório completo da FAO está disponível em ftp://ftp.fao.org/docrep/fao/009/j9256e/j9256e00.pdf