Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

A triste história do primeiro Parque Nacional do mundo

O primeiro “parque” do mundo, em Yosemite, Serra Nevada, Califórnia, era, na verdade, o lar da nação Miwok. As surpreendentes paisagens de Yosemite, resultado, em grande parte, dos sistemas indígenas de uso da terra, foram propostas para a conservação pelos próprios colonos e mineiros que doze anos antes tinham lutado, na “Guerra Índia da Borboleta”, contra os Miwok, os índios da região. Nessa luta desigual, as forças autorizadas pelo governo dos Estados Unidos perpetraram repetidos ataques contra os assentamentos indígenas. Os povoados indígenas foram totalmente queimados, para forçar os índios a abandonarem a área e os subjugar por meio de fome ou frio. O principal promotor do Parque, LaFayette Burnell, chefe do Batalhão Borboleta e partidário de “não tomar prisioneiros” Miwok, quis “limpar o território de bandos dispersos que o pudessem infestar”. Conforme os preconceitos da época, ele julgava os “peles-vermelhas” como vadios traiçoeiros e supersticiosos, “demônios uivantes” e “selvagens”. Uma vez criado, o Parque foi administrado, nos seguintes 52 anos, pelo Exército dos Estados Unidos, passando, em 1916, para o âmbito do recém-criado Serviço Nacional de Parques.

A expulsão do Parque privou os Miwok de suas terras tradicionais de caça, de seus campos de pastoreio, de sua pescaria e dos arvoredos onde colhiam nozes. Ao tentar recuperar alguma coisa dos brancos, eles foram atacados com armas e expulsos novamente da área pelo Batalhão Borboleta. Ironicamente, a palavra “Yosemite” é, segundo Simon Schama, um insulto utilizado pelos Miwok para se referir aos estadunidenses que os assaltavam, sendo que, na realidade, significa “alguns entre eles são assassinos”.

Em 1890, alguns anos após a expulsão, os Miwok apresentaram um pedido ao governo dos Estados Unidos. Exigiram compensação por perdas e denunciaram os administradores do Parque por permitir que colonos e fazendeiros brancos invadissem a área impunemente.

“O vale todo foi rasgado com estradas poeirentas e arenosas que saem dos hotéis dos brancos para todos os lados… Todos parecem vir aqui somente atrás de dinheiro… Nós não tratávamos desse jeito o Parque quando nos pertencia. Esse vale foi tirado da gente para criar uma área de lazer… Yosemite não é mais um Parque Nacional, mas apenas uma granja de feno e um campo para o gado”.

Suas reivindicações foram ignoradas, tendo sido ordenado o despejo dos restantes assentamentos Miwok em 1906, 1929 e, inclusive, em 1969. Os Miwok afirmaram que os parques nacionais eram criados não só para preservar áreas de “vida silvestre intocadas, para a fruição de futuras gerações”, mas, também, com fins lucrativos.

Não obstante, toda a beleza de Yosemite, com espetaculares saliências rochosas e enormes árvores de Sequoia gigantea, repercutiu na mentalidade americana como “uma surpreendente revelação da singularidade da República estadunidense”, e, assim, ela viu-se espelhada num projeto de lei que em 1864 criou o primeiro parque de vida silvestre do mundo, no Estado da Califórnia, em meio a uma guerra civil, “para benefício do povo, para sua fruição e lazer, para que permaneça inalienável para sempre”.

Tomado de: “Naturaleza cercada: pueblos indígenas, áreas protegidas y conservación de la biodiversidad”, por Marcus Colchester.