Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

Argentina: comunidades Mbyá Guarani ameaçadas por empresa madeireira

A selva de Yabotí, a 300 km ao leste de Posadas, na província de Misiones foi designada Reserva de Biosfera da UNESCO em 1995. Além de sua importância em matéria de biodiversidade, constitui o único refúgio e sustentação de duas comunidades da etnia Mbyá Guarani (Tekoa Yma e Tekoa Kapi’i Yvate), povos que apenas recentemente entraram em contato com o mundo exterior e que agora estão ameaçados pelos interesses da empresa Moconá Forestal S.A.

Os Mbyá Guarani vivem na selva de Misiones há mais de 1.500 anos. As duas comunidades ameaçadas pela empresa madeireira vivem e obtêm seus alimentos, medicinas e materiais em um território de 6.500 hectares que coincide com os lotes 7 e 8 da reserva e que estão em mãos privadas. A empresa ofereceu às comunidades 30 hectares para que se conformaram. Mas as comunidades guaranis rejeitaram a possibilidade de que essa terra tivesse um dono e lhes ofereceram 30 hectares das terras comunais que antigamente tinham habitado seus antecessores, e nas que moram hoje em dia, emprestadas de seus filhos. Depois, a oferta se ampliou a 200 hectares. A empresa continua sem querer entender a essência da cultura guarani.

A Fundación para la Defensa del Ambiente – FUNAM (Fundação de Defesa do Meio Ambiente), que trabalha junto com as referidas comunidades denuncia que a empresa Moconá Forestal S.A. está destruindo uma parte da Reserva Yabotí, tendo cortado recentemente mais de uma centena de árvores de grande porte.

O presidente da FUNAM, o biólogo Raúl Montenegro, denuncia que a empresa “possui as autorizações outorgadas pelo Ministério de Ecologia de Misiones sobre a base de normas obsoletas” e acrescentou que essas normas “além de obsoletas ignoram o funcionamento da selva. Beneficiam desse jeito as empresas madeireiras e prejudicam a saúde das comunidades indígenas. É inaceitável que a Reserva da Biosfera de Yabotí esteja tão mal administrada e que o governo de Misiones ignore as necessidades ancestrais da cultura guarani”.

“Se a Resolução 020/94 –o Plano de Manejo Florestal que aplica o ministério de Ecologia de Misiones- não se derroga, e o ministério continua autorizando o corte de árvores, indispensáveis para a vida dos Mbyá e da selva, a categoria que lhe outorgou a UNESCO à Reserva da Biosfera de Yabotí estará em perigo. Não deve permitir-se que esse genocídio silencioso continue tão impunemente” disse Montenegro em uma queixa formal apresentada perante a UNESCO em Paris.

Atualmente, as duas comunidades junto com a Equipo Nacional de Pastoral Aborigen ENDEPA (Equipe Nacional de Pastoral Aborígine), tramitam uma ação na Justiça de Misiones para que a empresa Moconá Forestal S.A. devolva as terras do lote 8 aos Mbyá. Mas até agora a justiça tem proferido sentenças a favor dos poderosos e há uma apelação em andamento dos advogados das comunidades.

“Enquanto a ação continua, as árvores vão caindo e a saúde dos Mbyá se deteriora pela falta de medicinas naturais e de presas que já não caem nas armadilhas. O ruído das motoserras e a queda brutal das árvores afugentou a fauna nativa” disse Montenegro.

Artemio Benítez, chefe da comunidade de Tekoa Yma acrescentou: “Não precisam nos ameaçar para que deixemos este lugar. Eles sabem que se nos privam do mato, nos vamos embora, e isso é o que estão fazendo”.

Natalino Benítez, pertencente a essa comunidade disse: “Os brancos já entraram em nosso mato e se levaram todas nossas medicinas, as que deveriam curá-nos. Se eles se levam tudo, não teremos medicinas, não vamos saber como viver. Onde vamos achar as medicinas que deveriam ser para nossos filhos e nossas filhas e que agora faltam”, perguntou.

Conforme dados fornecidos pelo Equipo Nacional de Pastoral Aborigen, essa etnia emprega mais de 150 espécies de plantas medicinais; muitas delas são árvores que a empresa corta despiedadamente perante as crianças e os adultos que vêem com espanto como se derruba seu mundo.

É por isso que a FUNAM exigiu que lhes sejam devolvidos aos aborígines os lotes 7 e 8 da reserva. “Até o momento da devolução o Ministério de Ecologia de Misiones deve proibir à empresa Moconá Forestal S.A. continuar cortando as árvores do Lote 8” exigiu Montenegro.

Montenegro apontou que esse desapossamento “é um genocídio silencioso” e acrescentou que o genocídio tradicional “cheira a pólvora e massacre, mas em Misiones se consegue sem derramamento de sangue. O fuzil tem sido substituído pela motoserra. As madeireiras derrubam árvores e ao fazê-lo deixam os Mbyá sem seu teto e sem suas medicinas, expondo-os a mais doenças e morte”.

Artigo baseado em informação obtida de: “Reserva de la Biosfera de Yabotí en Misiones”, FUNAM, correio eletrônico: funam@funam.org.ar , http://www.funam.org.ar ; “Argentina: Misiones: peligra la subsistencia de una etnia aborigen desconocida”, FUNAM, http://www.biodiversidadla.org/article/articleview/5278/1/15/ ; “La empresa Moconá Forestal S.A. arrincona a varias comunidades indígenas para explotar sus bosques”, http://www.setemextremadura.pangea.org/campana4.htm