Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

Argentina: “florestas do silêncio”, ou plantações de pinheiro nas Yungas

A região fitogeográfica das Yungas, ou floresta nublada, consiste numa floresta úmida que se apresenta em setores montanhosos ligados à Cordilheira dos Andes. Partindo da Venezuela, estende-se de forma descontínua pelo Equador, passando através do Peru e da Bolívia, até o noroeste da Argentina, onde os extremos relictuais se manifestam nas províncias de Salta, Jujuy, Tucumán e Catamarca. Em geral, a conservação dessa região é concebida sob o regime de Parques Nacionais: Baritú e El Rey, na província de Salta, Calilegua, na província de Jujuy, e Campo Los Alisos, na província de Tucumán. As Yungas são um dos ambientes com maior biodiversidade da Argentina, sendo que também estão entre os ecossistemas mais ameaçados do mundo, principalmente devido à sua rápida fragmentação e destruição.

Com uma altitude de 300 metros a mais de 4 mil metros, as Yungas podem ser divididas em quatro áreas, segundo os pisos altitudinais: Floresta Pedemontina (floresta ao pé da montanha), de transição e do tipo subtropical, possuindo 30% da biodiversidade toda desse valioso ecossistema; Selva Montina, Floresta Montina ou Floresta de Aliso (essas duas áreas têm sido bastante devastadas pelo corte seletivo de suas espécies nativas madeiráveis) e Pastos de Altura ou Pradaria Montina, relativamente conservada por ser de difícil acesso.

Calcula-se que 67% da área de floresta pedemontina original na Argentina sumiu, sendo que o restante foi alterado. A atividade agrícola que acompanhava as concentrações urbanas nessa região até o início do século XX, e que começou a substituir a floresta, se caracterizava pela diversidade da produção — cultura de erva mate, chá, chirimoya, manga, café — para satisfazer as necessidades locais. Porém, a partir da primeira década do século XX, com a chegada da estrada de ferro e a criação de engenhos de tabaco e açúcar — como o Engenho Ledesma, em Jujuy –, houve uma mudança de modelo e o país entrou numa economia de escala, com características comerciais e industriais. Vastas áreas de floresta pedemontina foram substituídas por extensas plantações de monoculturas intensivas (cana de açúcar, banana, cítricos) voltadas para a exportação. Esse processo trouxe a concentração da propriedade da terra nas mãos de poderosos grupos econômicos, nalguns casos, multinacionais, noutros, capitais nacionais e provinciais, na forma de sociedades anônimas, ou sob o domínio de famílias representantes do capital agro-industrial do noroeste argentino (engenhos, serrarias, produtores de fruta e hortaliças). Essa apropriação foi realizada em detrimento da população local, provocando marginalização, emigração rural e desemprego, e desconhecendo os direitos das comunidades nativas, como os Kollas, que habitam essas terras há séculos e desempenham um papel de primeira ordem na defesa das Yungas (ver o boletim nº 18 do WRM).

Nos últimos anos, a alteração das Yungas viu-se agravada por um novo fator de destruição: as plantações em grande escala de monoculturas de árvores, em especial, de espécies exóticas de rápido crescimento (pinheiro, eucalipto, grevillea, paraíso gigante). Esse tipo de plantio vem sendo promovido e financiado por órgãos multilaterais, como o Banco Mundial, principalmente para abastecer a poderosa indústria de celulose e papel e para satisfazer o consumo exagerado exigido pelo empacotamento de mercadorias dentro do atual modelo de globalização dos mercados. Nos últimos tempos, as monoculturas de árvores também são apresentadas como “a solução” para a mudança climática, já que agiriam como sumidouros de carbono. Mas, para isso, são derrubadas florestas nativas! (ver os boletins 38, 39 e 52 do WRM).

Jorge Baldo, biólogo e mestre em Vertebrados, Francisco Cornell, técnico em Turismo, e Freddy Burgos, guarda florestal, estão unidos pela paixão pelas aves e a certeza de que, se não fizerem alguma coisa para protegê-las, em breve não vai restar mais nada. Eles três moram no bairro Los Perales, na cidade argentina de São Salvador de Jujuy, no alto da belíssima paisagem da Floresta Montina, entre os 1200 e os 1500 metros de altitude. Até a presente data, eles identificaram 240 espécies de aves, algumas endêmicas da região das Yungas, como a Grallaria albigula, outras visitantes do hemisfério norte, como Hirundo rustica, Riparia riparia, Elanoides forficatus, Ictinia mississipensis e Vireo olivaceus. Também são testemunhas do perigo e denunciam os resultados de um censo que deu 189 espécies de aves numa floresta, contra 23 numa plantação de pinheiro, numa área do mesmo tamanho.

Nessas plantações, não há espaço para a biodiversidade. Elas são “desertos verdes” que perderam a multifuncionalidade de um ecossistema, e os moradores locais perceberam muito bem essa realidade, ao batizá-las como “florestas do silêncio”. Até quando vai ser imposto o silêncio sobre povos e florestas?

Artigo baseado em informação obtida em: material enviado por Freddy Burgos, correio eletrônico: nyctibius@yahoo.com.ar ; “Las Yungas, informe completo”, Eng. Martín M. Herrán, Biól. Pablo G. Perovic, Dra. Patricia Marconi, Geól. Néstor Aguilera, http://www.jaguares.com.ar/yungas/informe.html ; “La biodiversidad, los bosques y la gente. Casos de Argentina, Brasil y Colombia”, Ecoportal.net, http://www.ecoportal.com.ar/noti/notas452.htm