Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

Birmânia: reativam planos de construção da barragem de Weigyi

Financiada pelo Banco Mundial, e em funcionamento pela primeira vez em 1964, a barragem Bhumiphol na província de Tak ao noroeste da Tailândia, nunca funcionou com sua capacidade total. Em março de 1994, as barragens de Bhumiphol e Sirikit (ambas financiadas pelo Banco Mundial) continham apenas 7 por cento do total do seu volume aproveitável. Para o governo tailandês, a solução do problema é propor a construção de novas barragens no rio Salween, na fronteira da Tailândia com Myanmar, para desviar as águas até a barragem de Bhumiphol.

O rio Salween corre ao longo de vários quilômetros da fronteira com a Tailândia. Atravessa montanhas e florestas tropicais que foram, até pouco tempo atrás, o cenário de insurreições armadas. A Tailândia pretende privar o rio Salween, bem como outros rios que correm ao longo da fronteira, de uma parte das águas, produto das chuvas abundantes do monção, desviando-as em direção às barragens das suas próprias barragens e utilizar também esse recurso natural como fonte de energia elétrica.

Recentemente foram reativados os planos da Autoridade Geradora de Eletricidade da Tailândia (EGAT) para construir a barragem de Weigyi entre a província de Maehongson, na Tailândia, e o Estado de Karen, na Birmânia. A alteração do curso das águas que provocará a barragem afetará, rio acima, uma região que compreende 380-400 km em direção ao norte. Uma vez finalizado, o “Grande Torrente” de Weigyi atingirá 168 metros de altura, com uma capacidade de geração de 4.540 MW e um custo estimado em US$ 6 bilhões.

A ONG ambientalista Terra (Towards Ecological Recovery and Regional Alliance), sediada na Tailândia, afirma que a barragem, com um nível normal de água de 220 metros de altura, submergirá de 6.000 a 8.000 hectares de terras. Isto implicará o deslocamento de milhares de povoadores Karenni do Estado birmanês de Kayah. Mas a medida do dano ainda precisa ser estudada, embora um relatório da EGAT à Comissão de Relações Exteriores do Senado antecipe a provável destruição de milhares de hectares de florestas a ambas as margens do rio Salween.

No entanto, a barragem de Weigyi requer ainda a aprovação oficial de Rangún, quem já assinou, em Dezembro passado, um contrato com o Grupo MDX, sediado na Tailândia, para a construção de uma barragem de 3.300 MW em Tasarng, no Estado de Shan, 400 km rio acima.

A organização birmanesa Liga Nacional para a Democracia, de Aung San Suu Kyi, já confirmou, desde 4 de Janeiro, dia da independência da Birmânia, que se opõe firmemente às inversões estrangeiras enquanto não sejam mantidas conversações reais entre a oposição e o governo militar. Os povos Shan, Karen e Karenni também têm expressado desde 1993 sua condena aos projetos de barragens. “É uma questão de vida ou morte”, disse um representante Karenni. “A barragem de Weigyi poderia dividir os Karenni em dois. Seria o prego final para o nosso féretro. A construção de uma barragem no Salween terá sobre nós efeitos econômicos, sociais, culturais e ambientais. Os Karenni perderemos nossa fonte de alimentos”.

Artigo baseado em informações obtidas em: “Environment Dam in Karen State will still flood Shan State”, Shan Herald Agency for News, 20 de Fevereiro de 2003, disseminated by electronic list owner-irn-mekong@netvista.net ; “A paradoxical Alliance, Thailand taps Burma’s rivers”, André e Louis Boucaud, Le Monde Diplomatique, http://mondediplo.com/2000/02/10boucaud
“Over the hills and not so far away. The Karenni people of Kayah state in Burma will live and die with their resources”, por James Fahn http://www.geocities.com/jdfahn/Karenni.htm