Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

Chile: organização ambientalista questiona padrões do FSC em plantações

Segundo informação disponível na página Web do FSC, no Chile, sete empresas têm suas “florestas” certificadas, abrangendo uma área total de 262.168 hectares. No entanto, somente uma dessas empresas (Las Cruces S.A.) está realmente manejando uma floresta, com uma extensão de apenas 3.588 hectares. O restante (258.580 hectares) são monoculturas de árvores que, infelizmente, continuam sendo consideradas como “florestas” pelo FSC.

Na própria página Web (na seção “why do we do it” – “por que o fazemos”), o FSC estabelece o seu objetivo de “proporcionar um esquema de etiquetagem realmente independente, internacional e crível em matéria de madeira e produtos madeireiros. Isso dará ao consumidor uma garantia de que o produto vem de uma floresta avaliada e certificada como sendo manejada segundo padrões sociais, econômicos e ambientais previamente acordados”. No caso do Chile, essa afirmação é obviamente falsa, pelo simples motivo de que o FSC não pode dar nenhuma garantia ao consumidor de que o produto que ele adquire é oriundo de uma “floresta” bem manejada, já que a própria floresta não existe; a menos que as monoculturas de árvores exóticas sejam consideradas florestas.

É importante ressaltar que o FSC promove a criação de padrões nacionais para a certificação, em conformidade com seus princípios e critérios gerais. O Chile é um dos países onde existe uma “iniciativa nacional” (envolvendo empresários florestais e ONGs) que visa esse objetivo. Não obstante, a adoção de padrões nacionais não é tarefa fácil, como surge dos seguintes parágrafos escritos por uma ativista chilena defensora das florestas (Malú Sierra), profundamente envolvida nesse processo. Malú descreve uma visita a uma das plantações certificadas (Fazenda El Guanaco: 4.138 hectares), pertencente à empresa Forestal Millalemu (do Grupo Terranova), na Comuna de Quirihue, no sul do Chile, relacionando suas percepções com os problemas na certificação de plantações:

“Depois de muitos meses — na verdade, foram anos — de discussão na mesa de trabalho, com papéis e transparências projetadas, sempre nas cidades do sul ou em Santiago, a Forestal Millalemu (com mais de 120 mil hectares de plantações certificadas no Chile) convidou a gente para campo, para conhecer uma das suas plantações, certificada pelo FSC. O amabilíssimo gerente no Chile, Jorge López, sacrificou seus bonitos mapas para que a equipe do Comitê de Plantações soubesse, exatamente, onde estava. A chuva não dava trégua; toda vez que a gente descia dos veículos para todo terreno, em novembro, exatamente no dia 7, o fenômeno do El Niño presenteava essa região de seca interior com chuva. E molhava todos nós, não de todo preparados. Também não estávamos preparados para ver a imagem de morros rasurados de árvores, na Cordilheira de Quirihue.

A Forestal Millalemu tem como principal proprietário o empresário suíço Stephan Shmidheiny — um dos primeiros em aderir ao conceito de desenvolvimento sustentável –, sendo que suas plantações no Chile acredita-se que sejam a máxima expressão do conceito de sustentabilidade, tanto econômica quanto social e ambiental. Acredita-se…

O selo verde do FSC garante que a Millalemu não substitui florestas nativas por plantações, mas não exige que aí onde floresce a floresta lhe seja permitido crescer, fazendo um trabalho de colheita mais cuidadoso em suas plantações. Vimos brotos de carvalho sob pinheiros plantados há 20 anos, prontos para a colheita. Com ela irão também os carvalhos que evidenciam que, nesse lugar, bem antes de 1994, houve substituição de florestas por plantações. O selo do FSC também exige medidas para mitigação no solo: após a colheita, os detritos não mais são queimados — o que é um avanço –; agora, eles são moídos e depositados no solo para, depois de oito a dez anos, se tornarem novamente terra.

O FSC também coloca condições sociais, e vemos passar ônibus velhos, levando os operários de volta do seu trabalho. Antigamente, o transporte era feito em caminhões abertos. Nessa região, não há comunidades indígenas; portanto, a empresa não tem problemas no que diz respeito à reivindicação de terras por parte dos proprietários originais. Porém, ela tem problemas, sim, com os Mapuche, noutras fazendas dela, motivo pelo qual essas plantações não puderam ser certificadas.

Até hoje, o que o FSC não recomenda é o método de colheita. E, no Chile, o método empregado nas plantações é o corte rente, a mesma coisa que nos Estados Unidos, de onde, aliás, vem a árvore exótica mais plantada até hoje nas plantações chilenas: o pinheiro insigne, ou pinheiro de Monterrey (Pinus radiata). Entre os seus princípios, o FSC estabelece critérios gerais que devem ser desenvolvidos em cada país, para adaptá-los a cada realidade. No Chile, eles ainda não foram definidos, devido, justamente, à posição dos empresários florestais já certificados, alguns dos quais sustentam que não deve haver limites sequer para as dimensões do corte rente. Uma das justificativas é que as grandes empresas, como a Mininco (que não é certificada), colhem até 2 mil hectares contínuos.

É importante lembrar que o Chile é um país montanhoso e que, portanto, as colheitas feitas com corte rente, que sempre causam impactos negativos nos solos, aqui, são duplamente graves, pois a imensa maioria das plantações foi instalada em encostas com mais de 35 graus. De fato, é justamente por isso que a legislação proíbe a derrubada rente da floresta nativa. Em conseqüência, é claro que, do ponto de vista ambiental, o método de colheita do corte rente não pode ser aceito em nenhuma plantação, menos ainda numa certificada.

No Chile, o debate ainda pode levar um bom tempo; porém, Defensores da Floresta Chilena renunciou, no Comitê Técnico de Plantações, à sua participação no processo, mas não à diretoria da ICEFI (Iniciativa Chilena de Certificação Florestal Independente), como também não o fez ao FSC. Se vão ser colhidos cinqüenta ou quinhentos hectares com corte rente, isso já é irrelevante. Não concordamos, em absoluto, com o corte rente, e não percebemos avanços significativos nas reuniões. E pior ainda, é obviado — é deixado para futuras precisões — o como devem ser instaladas as novas plantações florestais que desejem ser ambientalmente certificadas, de sorte que os solos jamais sejam deixados sem cobertura, em especial, em áreas de encosta onde, apesar das mitigações todas, continua havendo erosão.

O consumidor que leva fé no selo do FSC não gostaria de ver essas imagens. Infelizmente, eu as vi e ainda as guardo nas minhas pupilas”.

Artigo baseado em relatório de Malú Sierra, Defensores da Floresta Chilena: “Visita al Predio El Guanaco, Forestal Millalemu, Comuna de Quirihue”, correio eletrônico: gondwana@adsl.tie.cl