Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

China: percorrendo o batido caminho das monoculturas de árvores

Na China, o Grande Pulo para a Frente de 1958 e a Revolução Cultural barraram o estabelecimento de plantações com árvores de alto rendimento, proposto pelo Ministério de Florestas, no final da década de 1950. Mas, a partir dos anos 1980, com a implementação da reforma e a política de portas abertas (isto é, a entrada da China no cenário do mercado mundial), começou a se alterar o desequilíbrio existente entre a oferta e a demanda de madeira. Isso não é muito diferente dos processos percorridos por outros países, que acabaram devorados pelo comércio mundial e pela demanda de madeira, papel e papelão para embalagem. Aparentemente, a resposta ao abismo também foi muito semelhante à implementada na maior parte das economias de livre mercado: plantações, em grande escala, com monoculturas de árvores de espécies de alto rendimento (geralmente exóticas), o mais das vezes, as mesmas. Assim, espera-se que a árvore nacional da Austrália vire a nova alternativa que permitirá à China satisfazer as necessidades cada dia mais vorazes de sua indústria de papelão e papel.

Em 1988, o governo chinês resolveu que, nos próximos 30 anos, seriam plantados 20 milhões de hectares com árvores de rápido crescimento e alto rendimento. Os cientistas de manejo florestal da China desenvolveram variedades de eucalipto e criaram uma área de plantações, considerada o maior “banco de genes de eucalipto” da Ásia, na região autônoma de Zhuang, no sudoeste da China, região subtropical com vastas áreas plantadas, para o fornecimento de matéria-prima para celulose mais eficiente em matéria de custos. Geralmente, as novas variedades plantadas são “eucaliptos de crescimento ultra-rápido”, podendo ser derrubadas seis anos após o plantio, com rendimento anual superior a 60 metros cúbicos por hectare.

Não obstante, a voragem da produção de madeira para celulose dá-se a expensas da perda de alimentos. Segundo dados na “Comunicação 2002 sobre Terras e Recursos da China”, do Ministério de Terras e Recursos, num ano, as plantações de árvores tiveram um aumento de 1,53 milhão de hectares, a área destinada para a lavoura diminuiu 1,68 milhão de hectares, ao passo que 1,42 milhão de hectares de terrenos para cultura viraram plantações de árvores.

Como sempre, o Banco Mundial meteu-se no assunto. A fim de promover o investimento estatal, em 1985, foi introduzido o Projeto de Desenvolvimento da Exploração Florestal do Banco Mundial (Crédito 605-CHA), com o objetivo de estabelecer e transformar plantações comerciais de madeira, construir estradas na floresta e adquirir equipamento acessório. No ano 2002, a área total com plantações de árvores atingiu 230,72 milhões de hectares; deles, 3,4 milhões são plantações com árvores de rápido crescimento e alto rendimento, incluindo 980 mil hectares estabelecidos em função do Plano Nacional de Florestamento, de 1991, financiado através de um empréstimo, de US$ 300 milhões, do Banco Mundial e verba do país, num valor de US$ 200 milhões.

As empresas estrangeiras também estão tentando entrar no enorme e cobiçado mercado chinês. Do fim dos anos 1980 para cá, são várias as grandes empresas estrangeiras que estão investindo no desenvolvimento de plantações na China, em especial, nas províncias litorâneas do sudeste, que se caracterizam por condições naturais e clima favoráveis ao investimento. A Asia Pulp and Paper Co. Ltd., uma empresa sediada em Singapura, o Grupo Soon Hua Seng, com sede na Tailândia, a Sino-Wood Partner Co. Ltd., sediada em Hong Kong, e a empresa japonesa Princes Co. Ltd., todas elas têm projetos em andamento na China. A Asia Pulp and Paper planeja estabelecer 1,3 milhão de hectares com plantações de eucalipto e acácia de rápido crescimento, no território chinês todo. No fim de maio do ano 2000, ela já tinha 65.300 hectares com plantações de árvores.

A Stora Enso, a gigante sueco-finlandesa de produtos florestais integrados, também é um importante agente na pesquisa e desenvolvimento desse campo. Junto com o governo da região autônoma de Guangxi Zhuang, a empresa fez um estudo de pré-viabilidade, para plantações em escala industrial e operações integradas de celulose e papel. No ano 2002, a Stora Enso também assinou um contrato de cooperação com a Academia Chinesa de Manejo Florestal, em Beijing.

Não há dúvida de que a China entrou na economia mundial, no seu próprio ritmo. As restrições ao investimento estrangeiro e à propriedade privada da terra implicam que as empresas estrangeiras conseguem o acesso às terras florestais através de acordos com as comunidades locais, os quais, por sua vez, são aprovados pelo governo. Mas, em última instância, o processo traz o surgimento dos mesmos elementos que caracterizam o modelo ocidental não sustentável de produção, consumo e comercialização, no caso, plantações em grande escala com monoculturas de árvores, com todos os sabidos impactos negativos para a população e o meio ambiente.

Artigo baseado em informação obtida em: “China Saw Less Farmland But More Forest in 2002”, 5 de abril de 2003, Community Forestry E-News, n. 2003.05, 17 de abril de 2003, RECOFTC, correio eletrônico: info@recoftc.org ; “The status quo and trend of forestry development in China”, http://www.fao.org/DOCREP/W7707E/w7707e04.htm ; “Improved Eucalyptus may Boost China’s Paper Industry”, 14 de janeiro de 2003, http://english.peopledaily.com.cn/200301/14/eng20030114_110094.shtml; página Web da Stora Enso, http://search.storaenso.com/2002/default.asp?openpage=environment/plantations.asp ; “Development of the Fast-growing and High-yielding Timber Bases”, http://www.forestry.ac.cn/zglyjs/3y.htm ; “Promoting company-communities deals letting the private sector take the lead”, http://www.iied.org/psf/pdfdocs/publicgood/PSF_China_Sec5.pdf.