Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

Da campanha “Tornar a Pátria Verde” ao aplicativo “Ant Forest”: as plantações de árvores na política ambiental da China

Uma reflexão histórica sobre os principais projetos chineses de plantação de árvores evidencia o papel do capital e das forças de mercado na China rural. O projeto mais recente – o aplicativo para celulares chamado Ant Forest – é baseado no consumismo “verde” e beneficia alguns dos maiores varejistas e empresas de tecnologia do país.

Placa na Alxa Left Banner, China, mostrando o logotipo da Alipay e Ant Forest. Indica: No. 281 Campo Florestal do Ant Forest; Tipo: haloxylon ammondendron; Total: 238.500 árvores; Este campo é plantado e mantido pela China Green Foundation. Foto: China Green Foundation.

Em julho de 2020, ecoando a política da “Bela China” do presidente Xi Jinping, (1) a Lei Florestal recentemente alterada definiu oficialmente o 12 de março como o Dia Nacional do Plantio de Árvores.

Já antes dessa alteração na lei, todos os anos, nessa data, a cobertura de notícias na China dava destaque a membros do governo de diferentes níveis participando de atividades de plantio de árvores, incluindo a mais alta liderança do governo central. O Dia do Plantio de Árvores na China teve origem várias décadas antes, quando o Governo Nacionalista escolheu essa data para o luto por Sun Yat-sen, que foi o primeiro presidente da República da China e fez muito para promover a plantação de árvores durante sua vida.

O Dia do Plantio de Árvores é uma síntese da política ambiental da China contemporânea, em que plantar árvores em escala industrial tem um papel fundamental.

Desde 1949, uma série de grandes projetos de plantio de árvores foi lançada e coordenada pelo governo chinês. Esses projetos conhecidos começaram em períodos diferentes, com condições políticas e econômicas muito distintas, de modo que cada um tem uma estrutura e uma agenda únicas. O mais recente é o aplicativo chamado Ant Forest, que obteve grande influência social em um curto período. O programa para smartphones permite aos consumidores participar do plantio e/ou da conservação de árvores enquanto consomem online.

A trajetória dos projetos de plantação de árvores na China depois de 1949 mostra que sua força motriz tem passado cada vez mais do poder político para os incentivos de mercado.

“Tornar a pátria Verde”

Em 1956, para apoiar o desenvolvimento industrial e reduzir a frequência das inundações, o Partido Comunista Chinês lançou a campanha “Tornar a pátria Verde”. (2) Nos dois anos que se seguiram, 80% dos cidadãos do país participaram de diferentes tipos de atividades de plantio de árvores, e foram plantados 16 milhões de hectares. (3) A campanha foi iniciada e coordenada por alguns membros da elite política do Partido Comunista Chinês, como Mao Tse-Tung e Zhou Enlai, e tinha uma natureza estritamente “de cima para baixo”. A consciência ambiental ainda não era cultivada pelas pessoas comuns, e os motivos para que elas se mobilizassem nessa campanha de massas eram a adoração aos líderes políticos e o fervor ideológico. (4) Mesmo assim, a campanha fracassou, pois continha uma enorme incerteza e dependia muito da vontade pessoal dos líderes.

De 1958 em diante, começou a prevalecer entre os membros do governo uma mentalidade voltada à promoção do “progresso” e do “desenvolvimento”. A Campanha do Grande Salto à Frente foi lançada por um período de cinco anos, com o objetivo de reconstruir o país, que passaria de uma economia agrária para uma sociedade comunista industrializada. Durante esse período, o governo incentivou a rápida industrialização da China e fez planos de produção que estavam fora da realidade e resultaram em imensa degradação ambiental. Por exemplo, muitos fornos de fundo de quintal foram construídos para aumentar a produção de aço, e as pessoas fundiam qualquer objeto desse material que encontrassem. Para alimentar esses fornos, foram destruídas áreas incomensuráveis ​​de floresta. Ironicamente, o mesmo poder político que promoveu o Grande Salto à Frente resultou, dessa vez, na mais significativa devastação ambiental provocada pelo homem na história chinesa moderna. (5)

Projeto de Florestamento do Cinturão de Proteção dos Três Nortes

O Projeto de Florestamento do Cinturão de Proteção dos Três Nortes (também conhecido como Grande Muralha Verde) cobre vastas áreas de terra nas regiões norte, noroeste e nordeste da China. Esses locais estão ameaçados pela desertificação e pela seca há muitos anos. Entre as décadas de 1960 e 1970, 29,67 milhões de hectares, incluindo terras aráveis ​​e campos, deterioraram-se significativamente, inclusive com parte delas se transformando no que é conhecido como Deserto de Gobi. (6) Em 1978, o governo chinês lançou a Grande Muralha Verde como o maior projeto de plantação de árvores do mundo, visando conter a expansão do deserto. Seu objetivo era muito ambicioso: ampliar a área total de cobertura de árvores no norte da China para quase 38 milhões de hectares, o que significa aumentar o índice de cobertura de 5% para 14,95% até o final de 2050. (7)

A duração prevista desse projeto é de 73 anos, de 1978 a 2050, divididos em oito etapas. Durante a segunda etapa (após 1985), com o objetivo de motivar mais pessoas a participarem, começou a ser promovida a ideia de “florestas ecoeconômicas”, (8) que resultou na introdução de plantas economicamente valiosas, como árvores frutíferas e ervas, bem como técnicas de cultivo mais avançadas.

Enquanto isso, o governo deu início a uma reforma para desenvolver a economia do setor privado, que supostamente beneficiaria as pessoas que plantassem árvores nas terras obtidas por contrato dos governos locais ou de coletivos de povoados. (9) Essas reformas destacam a crescente importância da economia de mercado nos projetos de plantação de árvores na China. Isso também se refletiu na redução do trabalho não remunerado realizado pelo público em geral, o que contribuiu nas diferentes fases do projeto.

Na China rural, um sistema chamado “dois trabalhos” (liang gong) funcionou por muito tempo, exigindo que os moradores das zonas rurais fisicamente aptos realizassem certa quantidade obrigatória de trabalho todos os anos, em projetos como plantio de árvores, prevenção de enchentes, construção de estradas, reforma de instalações escolares e construção de estruturas de irrigação. (10) Antes de ser completamente abolido, em 2006, esse sistema desempenhou um grande papel na Grande Muralha Verde. Entre 1978 e 2000 (Etapas 1 a 4), o investimento total no projeto foi de 71.582,72 milhões de renmimbis (mais de 10 bilhões de dólares). O valor descontado do trabalho não remunerado feito por pessoas comuns equivaleu a 65,57%, enquanto os investimentos do governo central, governos locais e outros setores públicos representaram apenas 13,84%, 14,83% e 5,75%, respectivamente. (11) No entanto, com o aprofundamento das reformas econômicas no país, o projeto teve que oferecer remuneração para ser atrativo no mercado de trabalho. Dessa forma, a proporção de trabalho não remunerado no investimento total diminuiu muito, de 96,14%, para 90,79%, 75,61% e 14,64%, nas quatro etapas, respectivamente. (12) Nesse sentido, o projeto da Grande Muralha Verde passou a ser impulsionado cada vez mais pelas forças do mercado e menos pelo poder político.

Ant Forest: (13) Um projeto de plantio de árvores com base no mercado

Em agosto de 2016, a Ant Financial – a maior empresa chinesa de tecnologia financeira – lançou um jogo para celulares chamado Ant Forest (Floresta de Formigas), que permite que os consumidores participem do plantio e da conservação de árvores enquanto consomem online. Ele mostra a pegada de carbono relativa aos registros de consumo do usuário (com base nos dados gerados pela Alipay, a maior plataforma de pagamento online da China e também um produto da Ant Financial). Os “comportamentos verdes” do usuário são recompensados ​​com “pontos de energia verde”. À medida que seus pontos se acumulam em determinados níveis, os jogadores podem optar por plantar uma árvore no mundo real ou fazer melhorias virtuais em um pequeno pedaço de terra em uma das áreas de conservação cofinanciadas pela Ant Financial. Com base na quantidade de pontos de energia verde, os usuários podem escolher entre vários tipos de espécies de árvores, incluindo saxaul, árvore de damasco, espinheiro-mar, tuia-da-China, pinheiro chinês, pinho-de-riga, salgueiro rosa, scoparium e choupo do deserto.

O Ant Forest também possui funções interativas que permitem aos usuários plantar árvores em parceria, roubar pontos de amigos (receber pontos que seriam de outros) e regar árvores para outras pessoas (doar pontos). Esses recursos têm muita popularidade entre os usuários e contribuem para o envolvimento ativo deles com o programa, levando a uma adesão cada vez maior. De acordo com o Relatório de Sustentabilidade da Alipay de 2019-2020, os participantes do Ant Forest somavam 550 milhões de pessoas em maio de 2020, e mais de 2 milhões de árvores haviam sido plantadas no mundo real. (14)

Para além de sua enorme influência social, o app Ant Forest também proporciona uma vantagem competitiva substancial para a Ant Financial e as empresas relacionadas, principalmente de duas maneiras. Em primeiro lugar, como uma iniciativa “verde” de plantio de milhões de árvores, o aplicativo criou uma imagem positiva para as empresas, como a Ant Financial e o grupo chinês Alibaba, a maior empresa de comércio varejista e online do mundo. Por sua vez, os usuários do Ant Forest geralmente veem a Alibaba como um grupo empresarial importante, de porte imenso, com muito sentido de responsabilidade social e consciência ambiental.

Em segundo lugar, o aplicativo aumenta a dependência dos usuários em relação à Ant Financial ao criar as regras do jogo. Ele exige que os jogadores ajam de maneiras específicas para ganhar “pontos de energia verde”, como caminhar, alugar bicicletas compartilhadas ou fazer pagamentos pelo aplicativo Alipay. Essas ações são definidas como “comportamentos verdes” no Ant Forest. Quase todas as possibilidades de ganhar “pontos de energia verde” no jogo, com exceção de caminhadas, estão exclusivamente relacionadas à adoção de serviços ou produtos da Ant Financial ou da Alibaba. Por exemplo, apenas comprando ingressos de cinema por meio da plataforma online Taopiaopiao, de propriedade da Alibaba, e não em qualquer outra plataforma semelhante, é que se podem gerar pontos. Como resultado, os usuários estão cada vez mais recorrendo aos serviços da Ant Financial, principalmente no Alipay.

O Ant Forest é um programa baseado na ideia de consumismo “verde” e tem como objetivo cultivar um estilo de vida “verde” para lidar com os problemas ambientais. No entanto, a lógica capitalista de expansão, acumulação e competição tem se refletido plenamente nas regras do aplicativo, resultando em uma clara contradição entre seus objetivos ambientais e sua real influência sobre os usuários. Ele também fornece informações simplificadas sobre questões ambientais complexas, criando a ideia de que o consumo pode ser compensado com o plantio de árvores ou atividades de conservação. Portanto, na verdade, impede que seus usuários compreendam plenamente as implicações ambientais de seus comportamentos de consumo. (15)

A trajetória dos projetos de florestamento na China: do programa Tornando a pátria verde ao Ant Forest

A China há muito se impressiona com as consequências ecológicas do desmatamento em grande escala, como rápida desertificação e inundações frequentes, que aparentemente justificam a importância dos projetos de plantio de árvores. Contudo, há diferentes vozes questionando a eficácia desses projetos, argumentando que eles resultam em novos problemas ecológicos. (16) Por exemplo, de acordo com o professor Cao, da Universidade Minzu da China, (17) mais de 80% das plantações de árvores na região dos Três Nortes envolvem plantações de monoculturas, o que resulta na vulnerabilidade das árvores a doenças e pragas de insetos, além de uma série de outros impactos. Apesar das críticas, a plantação de árvores ainda é um dos principais focos da política ambiental chinesa.

Este artigo apresentou três conhecidos projetos chineses de plantação de árvores, em diferentes períodos. Na década de 1950, o Tornando a pátria verde foi lançado para combater as inundações frequentes e produzir mais madeira. No final dos anos 1970, a Campanha Grande Muralha Verde, estabelecida ao mesmo tempo que as reformas econômicas nacionais, começou a definir as bases para uma economia de livre mercado em projetos de plantação de árvores na China. E, mais recentemente, o aplicativo Ant Forest obteve profunda ressonância junto ao público com seus objetivos de consumismo “verde”, o que lhe possibilitou adquirir um grande número de usuários ao mesmo tempo em que trabalhava com o Estado em projetos de plantação de árvores.

Em 2020, segundo o plano do Departamento Nacional de Silvicultura, o Ant Forest vai apoiar financeiramente o plantio de 720 milhões de árvores. (18) Da Campanha Tornando a pátria verde ao aplicativo Ant Forest, os projetos de plantação de árvores em massa implementados desde 1949 traçam uma trajetória que evidencia o papel cada vez mais importante do capital e das forças de mercado na China rural.

Zeng Zhen, syndi.zeng@outlook.com
Universidade de Helsinque, Finlândia

(1) O projeto “Bela China” foi apresentado pela primeira vez como conceito de governo pelo ex-presidente Hu Jintao, no 18º Congresso Nacional, em 2012. O conceito enfatiza que alcançar um bem-estar ecológico é uma das tarefas mais importantes do governo chinês, junto ao desenvolvimento da economia, da política, da cultura e da sociedade. O presidente Xi Jinping reafirmou essa tarefa no 19º Congresso Nacional, em 2017 e, desde então, vem enriquecendo continuamente essa ideia.
(2) Long, J. J, 2007, 中国现代环境保护运动的先声–20世纪50年代 “绿化祖国植树造林”运动历史考察 “The Herald of Modern Environmental Protection Movement in China:a study on ‘Greening the Motherland’ Campaign in 1950s”
(3) Idem
(4) Idem; Sun T., 2018, 中国近现代政治社会变革与生态环境演化, “The Changes in Sociopolitical Conditions and the Environment in Modern and Contemporary China”, Intellectual Property Publishing House, Beijing
(5) Idem; Xu, B., 2014, 近400年来中国西部社会变迁与生态环境, “The Social Change and Ecology in Western China in the Past Four Centuries”, China Social Science Press, Beijing
(6) Zhang, B. X., 2013, 三北造林记, “The Records of Three-North Shelterbelt Forestation Project”, Xinhua Publishing House, Beijing
(7) Idem.
(8) Ren, Y., & Gao, Z. Y., 1996, 关于生态经济型防护林体系基本理论框架的探索, “Exploring on the Basic Theoretical Framework of the system of Eco-Economic Protection Forest”, Journal of Beijing Forestry University, Vol. 18, Supp. 2, p. 1-7
(9) Zhang 2013
(10) Song, B. C., 2000, 规范管理农村’两工’, “Standard Management of Rural “Two-Work” System, Agriculture Knowledge, 2000-10, pp. 49
(11) Zhang, 2013
(12) Zhang, 2013
(13) Segundo a Ant Financial, o Ant Forest é concebido como um arquétipo de um sistema pessoal de contabilidade de carbono.
(14) Alipay, 2020, ALIPAY SUSTAINABILITY REPORT 2019-2020: Towards A Better Society For the Future, Ant Group, [online] https://gw.alipayobjects.com/os/bmw-prod/e39c99c2-0193-40fc-8265-cf4f72a8367e.pdf , (acessado em 24 de junho de 2020)
(15) Zeng, 2018, Saving the World by Being Green with Fintech: the contradictions between environmentalism and reality in the case of Ant Forest, Lund University, Lund, (acessado em 6 de junho de 2019)
(16) Zastrow, M. 2019, “China’s tree-planting drive could falter in a warming world”, Nature (London), vol. 573, no. 7775, p. 474-475; Cao, S. X., 2008, Why Large-Scale Afforestation Efforts in China Have Failed To Solve the Desertification Problem, Environment Science & Technology, 42:6, 1826-1831
(17) Cao, 2008
(18) forestry.gov.cn, 2020, 中国绿化基金会扎实开展蚂蚁森里项目春季造林工作China Green Foundation Firmly Promotes the Spring Afforestation Project of Ant Forest. National Department of Forestry”, (acessado em 8 de agosto de 2020)