Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

Gana: um dique na beira das florestas

O governo de Gana e a Sino Hydro, a companhia de construção chinesa, assinaram um memorandum de entendimento e um contrato por 500 milhões de dólares para realizar a construção do Dique Bui. Dos milhões de dólares foram assignados para o Estudo de Avaliação do Impacto Ambiental (AIA) desenhado para preparar o terreno para o início do projeto, que tem permanecido em estado stand-by durante décadas. Apesar do desastre ambiental provocado pelo dique Akosombo do Banco Mundial em Gana (utilizado para energia a baixo custo para processar bauxita extraída na Jamaica) e a sua falha em atingir as expectativas de geração de energia, o novo projeto de dique foi reiniciado com a intenção de evitar o custo crescente de operação de fábricas termais com petróleo.

O reservório do dique projetado abasteceria de água a uma extensa área do Parque Nacional Bui, levando água para os últimos hábitats remanescentes para hipopótamos em Gana, a moradia de perto de 150 hipopótamos e muitos anfíbios, borboletas, pássaros e diferentes primatas em perigo de extinção (vide o Boletim Nº 46 do WRM). “Ao contrário de crenças amplamente difundidas pelos proponentes do dique de que os hipopótamos e as outras espécies em risco de extinção no parque serão relocados quando começar a construção do dique”, diz uma reclamação apresentada à Comissão Mundial sobre Diques (WCD), “os conservacionistas entrevistados respondem que os hipopótamos em particular não podem sobreviver em nenhum lugar fora do parque nacional BUI devido à sua natureza única. Por outra parte, o departamento de vida selvagem e caça está sem dinheiro comos para suportar o custo envolvido no resgate dos animais em Bui e enviá-los aos supostos ‘refúgios seguros’.”

O projeto do dique Bui requererá a relocação forçada de mais de 2.500 pessoas e vai também produzir outros sérios impactos ambientais, tais como a mudança do regime de fluxo do rio que vai causar dano nos hábitats rio abaixo. Um recente estudo feito pela Universidade de Aberdeen revelou que o rio Black Volta tem 46 espécies de peixes de 17 famílias, todas de importância econômica. Estas comunidades de peixes nativas poderão ser seriamente afetadas pelas mudanças na temperatura de água, a poluição e as barreiras que vão bloquear a sua migração ao longo do Black Volta. As florestas que servem como terreno para desovação dos peixes também serão destruídas. Doenças provenientes da água também poderão ocorrer caso o dique seja construído, dizem os críticos. Shistosomiase em particular poderia se estabelecer no reservório, com sérios riscos de saúde para o povo local.

A região não desconhece o deslocamento e as epidemias. Em 1965, 80.000 granjeiros foram deslocados devido à construção do dique Akosombo, que naquela época levava água a mais terra do que qualquer outro projeto hídrico, aproximadamente 8.500 km quadrados. Isto levou a epidemias de malária, bilharzias, e outras doenças provenientes da água. Entre 1978 e 1981, o dique Kpong deslocou a 6.000 pessoas, causando conflictos de relocação, supostamente piores do que tinha acontecido previamente.

O parque Bui está situado no centro-oeste do país, contra a fronteira internacional com Côte d’Ivoire, e está dividido em dois pelo rio Black Volta. A vegetação é predominantemente florestas de savana, com áreas de pasto e pedaços de floresta nas ribeiras ao longo do rio Black Volta e outros pequenos rios no parque. Estas florestas nas ribeiras do rio são as florestas desse tipo melhor preservadas ao longo do Black Volta e, provavelmente, a única floresta desse tipo em todo o sistema Volta.

Por outro lado, existem também preocupações sobre a factivilidade de um dique hidroelétrico em um rio que aparentemente é altamente estacional. Aparentemente os ghanianos poderiam acabar pagando um preço bastante elevado pela eletricidade!

Um artigo baseado em informação de: “Gana: Tudo Pronto para o Dique BUI”, Graphic Gana, divulgado por Pambazuka News 228, http://www.pambazuka.org/ index.php?id=30110; “Dams Incorporated. O Registro de Doze Companhias Européias de Construção de Diques”, Chris Lang, Nick Hildyard, Kate Geary e Matthew Grainger, publicado pela Sociedade Sueca para Conservação da Natureza, http://www.thecornerhouse.org.uk/item.shtml?x=52008#index-01-03-00-00-fn019ref;