Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

Panamá: nação Kuna denuncia modelo de desenvolvimento que o priva de seus recursos naturais

Nos dias 13, 14 e 15 de abril, coincidindo com a comemoração do 1º Centenário da República do Panamá, a nação Kuna reunida sente que os seus direitos ancestrais ainda não foram nem aceitos nem considerados por grande parte da sociedade panamenha. Reunidos, eles exprimiram-se da seguinte maneira:

“A nação Kuna, representada pelos seus máximos dirigentes, os Saila Dummagan das comarcas Kuna de Madungandi, Wargandi, Kuna Yala e Dakarkunyala, com um total de 68 comunidades, reunida na comunidade de Ibedi, comarca de Madungandi, nos dias 13, 14 e 15 de abril, comunica à nação Kuna toda e à opinião pública nacional e internacional a alegria por este encontro de irmãos e a determinação de caminhar unidos na construção da nação Kuna.

Após séculos de agressão colonial, que implicaram o dilaceramento e dispersão dos nossos povos por rios e florestas, e após 100 anos de República, que agravaram essa divisão politicamente, com fronteiras nacionais e provinciais, reunimo-nos os Saila Dummagan das diversas comarcas Kuna, para compartilhar os nossos problemas e iniciar um processo de articulação e união em defesa dos nossos direitos.

Em Ibirdidiuar, tomamos mais consciência de que possuímos as mesmas raízes, de que somos irmãos do mesmo tronco, de que Nana Gabayai foi engolida por Olotinakilele e sua gente, e decidimos juntar seus ossos, espalhados por uma infinidade de rios, e lhes dar vida novamente.

Sentimos muito a ausência dos nossos irmãos de Arquia e Caimán Novo, os quais, devido à situação na Colômbia, não puderam participar. Depois de ouvirmos uns aos outros, denunciamos que fomos e continuamos sendo vítimas de um modelo de desenvolvimento baseado na ambição, na desapropriação dos recursos naturais e no desprezo pela vida das pessoas, dos povos e suas culturas. Mudam as pessoas e os nomes dos sistemas, mas a filosofia continua a mesma. A filosofia que levou os espanhóis a invadir as nossas terras, a assassinar os nossos avôs, a destruir a nossa cultura e civilização, para se apossar do ouro e outras riquezas, é a mesma filosofia que hoje faz com que a administração Bush arrase o Iraque e massacre o povo iraquiano, para se apropriar do ouro negro. É a mesma filosofia que está por trás do ALCA, do Plano Puebla-Panamá e do Plano Colômbia, e que continua de olho nos nossos recursos, para a satisfação dos interesses dos poderosos, e onde não há margem para os direitos dos legítimos donos e setores desapossados.

Reunidos na comarca de Madungandi, vemos como, após quase três décadas da inundação de 35 mil hectares do seu território, com a construção da hidrelétrica Ascanio Villalaz, os nossos irmãos continuam aguardando o cumprimento das promessas feitas e, em lugar de desfrutar dos benefícios da represa, eles vêem aumentar a malária e outros males.

É a mesma filosofia que hoje quer modificar o Código de Mineração e ganhar as nossas mentes e corações, para implementar a miséria em nossas comarcas e no país todo.

Isso dói, e nos opomos a que as vidas dos nossos irmãos de Paya, Púpur e Arquia continuem ameaçadas e andem sujeitas, em pleno século XXI, a assassinato e deslocamento.

Ficamos revoltados, e condenamos o fato de, na declaração que os presidentes da Colômbia e da América Central fizeram no Panamá, não ter sido feita menção alguma da massacre de quatro irmãos Kuna por paramilitares colombianos, e que somente fosse mencionado o atentado no clube privado El Nogal, de Bogotá.

Condenamos a irresponsabilidade do governo da Sra. Mireya Moscoso, por se imiscuir no conflito colombiano, colocando ainda mais em risco a vida daqueles que moramos na fronteira.

Na comemoração do 1º Centenário da República, nós sentimos que grande parte da sociedade panamenha ainda nem compreende nem aceita os nossos direitos, anteriores aos 100 anos da República e aos 500 anos da conquista e da colônia.

Exigimos o reconhecimento da comarca Dakarkunyala aos nossos irmãos de Paya e Púpur, e que sejam cumpridas as promessas feitas pela Presidenta da República depois da massacre do mês de janeiro, as quais ainda não foram cumpridas.

As comarcas legalmente reconhecidas, como Madungandi, Wargandi e Kuna Yala, continuam sem proteção e ameaçadas por mais invasões de colonos e empresários. As autoridades nacionais permanecem surdas às nossas denúncias, se recusam a receber os nossos Saila Dummagan e não movem um fio do cabelo para fazer com que seja cumprida a legislação e retirados os invasores ilegais.

Os programas de educação continuam desconhecendo a nossa cultura, cosmovisão, história, espiritualidade e religião.

A Convenção 169 da OIT ainda não foi ratificada.

Como dirigentes das comarcas Kuna, manifestamos a nossa vontade de continuar lutando pelo fortalecimento e desenvolvimento do nosso povo. Um desenvolvimento baseado nos princípios da nossa cultura: o respeito pela pessoa, pela Terra Mãe, pelo diálogo e pela solidariedade entre os povos.

Habitamos diversas comarcas, mas somos um povo só. Por isso afirmamos o nosso direito e a nossa obrigação de unir as nossas mãos, para atingir os nossos objetivos.

Acontecido na comunidade de Ibedi, comarca Madungandi, no dia 14 do mês de abril do ano 2003.”

Enviado por Equipo de Redacción EcoPortal.net, Ambiente y Sociedad, n. 129, 23 de abril de 2003, correio eletrônico: info@ecoportal.net, www.ecoportal.net.