Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

Vietnã: suspende-se a construção de planta de celulose e papel em Kontum

Em 24 de outubro de 2002 as autoridades provinciais anunciaram a suspensão da construção da nova planta de celulose e papel com uma capacidade de 130.000 toneladas ao ano em Dac To, província de Kontum, nas terras altas centrais do Vietnã. A agência estatal de notícias Vietnã News Agency (VNA) informou que se deteve a construção devido “ao descumprimento da formulação de um plano mestre crível”.

Seis meses antes, durante uma viagem de dois dias a Kontum, o Vice-Primeiro Ministro, Nguyen Cong Tan tinha exigido da Companhia Papeleira do Vietnã, Vinapimex, a publicação de um plano que estabelecesse de onde proviria a matéria prima para alimentar o estabelecimento.

Vinapimex tinha planejado o estabelecimento de Kontum partindo da suposição de que haveria mais de 20.000 hectares de plantações disponíveis para alimentar a planta, e que poderiam se plantar ainda mais terras. Porém, três anos depois, há menos de 15.000 hectares de plantações e parte dessa área se obteve despejando das suas terras e lares a povoadores locais. Depois da detenção na construção, as autoridades provinciais de Kontum declararam à VNA que a expansão da área de plantações de árvores para gerar mais matéria prima simplesmente não era viável.

Jaakko Poyri, a empresa consultora florestal e de engenharia mais grande do mundo, foi a assessora no projetado estabelecimento industrial. Em 1998, Poyry elaborou para Vinapimex um estudo de factibilidade sobre o estabelecimento e preparou os documentos para um chamado a concorrência pública em maio de 2002. O custo total do estabelecimento estimou-se em US$ 240 milhões, montante que inclui US$ 163 milhões em equipamentos provenientes da Europa ocidental.

A suspensão na construção do estabelecimento de Kontum é apenas um dos problemas aos que se enfrenta Vinapimex, empresa administrada pelo estado e principal produtora de papel do Vietnã. Vietnã tem a capacidade de produzir 360.000 toneladas de papel ao ano, aproximadamente 70 por cento do papel consumido ao ano no país. Mas, em agosto de 2002, a VNA informou que os depósitos da Vinapimex estavam ao máximo da sua capacidade, com 28.500 toneladas de papel armazenado, incluindo 16.000 toneladas do ano anterior. A companhia acusou aos exportadores estrangeiros de praticar concorrência desleal com papel barato dentro de Vietnã, mas a realidade é que o papel importado é mais barato e de melhor qualidade. Em 2002, Vietnã importou 52.000 toneladas de celulose e 290.000 toneladas de papel.

Numa tentativa de concorrer com os importadores, Vinapimex reduziu duas vezes os preços do papel durante 2002. Enquanto isso, os custos de produção do papel aumentaram em outubro quando o governo incrementou o preço da eletricidade. Vinapimex solicitou do governo uma redução das taxas de eletricidade aos níveis anteriores a outubro de 2002, e está tentando obter outros subsídios do governo, através de empréstimos de crédito preferenciais e uma redução do imposto ao valor agregado.

As perspectivas não são boas para Vinapimex. Este ano, segundo as regras da Área de Livre Comércio da ASEAN, Vietnã deve reduzir as tarifas sobre as importações de papel de 50 para 20 por cento.

Em 2000, Dang Van Chum, Ministro da Indústria do Vietnã, declarou à revista comercial Pulp and Papel International, que Vietnã tinha uma estratégia clara para a indústria da celulose e o papel para a próxima década. “Num prazo de 10 anos queremos que a nossa indústria forneça 80-90 por cento da demanda interna, com uma taxa de crescimento média de 10,4 por cento ao ano”, afirmou. Acrescentou que o país também espera aumentar o comércio com o mercado internacional.

Só dois anos depois, os planos estão destroçados. Em julho de 2002, o Vice-Primeiro Ministro Nguyen Tan Dung indicou ao Ministério da Indústria que ajustará seu plano de desenvolvimento para a indústria papeleira até 2010. Dung estabeleceu que todas as fábricas novas de papel deviam ter em conta planos de fornecimento de matéria prima.

Enquanto isso, Vinapimex continua com seus planos de expansão. Está planejando um estabelecimento de celulose com uma capacidade de 250.000 toneladas ao ano em Phu Tho, com o objetivo de alimentar o maior estabelecimento de celulose e papel do Vietnã, localizada em Bai Bang.

Em outubro de 2002, o governo aprovou os planos da Vinapimex para um estabelecimento de celulose e papel no valor de US$ 104 milhões na província de Thanh Hoa. O estabelecimento terá uma capacidade de 50.000 toneladas de celulose e 60.000 toneladas de papel ao ano.

Na provincia de Lam Dong, Vinapimex tem planos de estabelecer uma fábrica de celulose de US$ 250 milhões, com uma capacidade entre 200.000 e 400.000 toneladas ao ano. O Vice-Presidente do Comitê Popular de Lam Dong, Hoang Si Son, declarou ao Vietnã Economic Times, que “a Vinapimex plantou uma área de 10.000 hectares para acrescentar às 30.000 hectares existentes; pensamos aumentar a coberta de bosque a 135.000 hectares”.

Aparentemente, Vinapimex considera que a construção de novos estabelecimentos de celulose e papel é a única forma que lhe resta para sobreviver como empresa. Obviamente, a companhia poderia simplesmente construir mais depósitos com maior capacidade para as reservas massivas do papel pouco rentável que produz. Depois, poderia acudir ao governo e às agências de cooperação internacional para obter os subsídios que necessita para assegurar sua supervivência burocrática. Os impactos sobre as comunidades rurais do Vietnã, seus bosques e suas formas de sustento não terão uma solução tão fácil.

Por: Chris Lang, correi eletrônico: chrislang@t-online.de