Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

Chile: campanha contra projeto canadense de produção de alumínio

Atualmente, a Patagônia chilena encontra-se ameaçada por um megaprojeto da transnacional canadense Noranda Inc., empresa de mineração com vasta experiência e que hoje planeja construir uma das maiores plantas redutoras de alumínio do mundo, na prístina região de Aysén.

Para dimensionar o estrago que causaria a planta de alumínio, cujo nome é Alumysa, é importante descrever a região onde se pretende instalar a planta e as obras anexas.

Aysén, uma das 13 regiões do Chile, possui uma área de mais de 10 milhões de hectares (108.494,4 km²), do quais 4,8 milhões com florestas nativas, 1,1 milhão com áreas alagadas e 1,8 milhão com neves e geleiras; cabe ressaltar que é a região do Chile com maior número de florestas nativas.

Segundo o último censo do ano 2002, a população dessa região é de 86.697 habitantes, com uma densidade de 1,2 habitante por km². Os habitantes da região de Aysén concentram-se em centros urbanos, sendo as cidades mais importantes Coyhaique e Porto Aysén, esta última muito próxima ao local onde se pretende instalar a planta redutora.

Essa parte do Chile distingue-se por manter características hoje raras no mundo, como, por exemplo: milhares de hectares de florestas e ecossistemas virgens, com espécies de fauna e flora únicas no planeta, céus limpos e ar puro, lagos e rios não poluídos. Além das riquezas naturais de flora e fauna, nessa região existem inúmeras geleiras, como a da lagoa São Rafael e a de Campos de Gelos, consideradas uma das maiores reservas de água doce do planeta.

Sem dúvida, a região chama a atenção por sua enorme beleza natural, o que faz com que todo ano aumente o número de turistas chilenos e estrangeiros que chegam em busca de paisagens e lugares únicos no mundo. Também é importante ressaltar que os habitantes dessa região dão valor ao patrimônio natural em seu território, e é por isso que eles o chamam de “Reserva de Vida”.

Em que consiste o megaprojeto Alumysa?

O projeto, atualmente sujeito a avaliação de impacto ambiental, envolve a construção de, pelo menos, uma planta redutora de alumínio, três centrais hidrelétricas e seis represas para fornecimento de energia elétrica na planta (central hidrelétrica Rio Corvo, central hidrelétrica Lago Condor e central hidrelétrica Rio Branco), um porto na Bahia Chacabuco para 45 toneladas, um cais e uma plataforma flutuante. Além disso, o projeto inclui uma planta para a fabricação de ânodos e cátodos, 79 quilômetros de linhas de transmissão elétrica, das centrais para a planta, e 95 quilômetros de trilhas e lagoas de decantação para efluentes líquidos.

O projeto Alumysa, da Alumysa Joint Venture e Noranda Holding Limited, sediadas nas Ilhas Caimão, propõe um investimento que chegaria aos US$ 2,75 bilhões, o que o torna o maior investimento estrangeiro feito de uma tacada na história do Chile; para um projeto com uma vida útil de 50 anos.

O incrível é que apenas US$ 101 milhões seriam gastos na construção de obras civis e US$ 350 milhões em mão-de-obra; a maior parte do investimento, US$ 2,2 bilhões, seria destinada para a compra de maquinário para o funcionamento da planta. Isso resulta bem mais curioso se levarmos em conta que, no Chile, existe uma legislação especial para as regiões extremas (entre as quais está Aysén), facilitando a importação de maquinário com tarifas alfandegárias muito baixas.

Se a isso somarmos o fato de, no Chile, as empresas consideradas de mineração não pagarem impostos, pois existem mecanismos que promovem o estabelecimento desse tipo de empresa desde a época da Ditadura Militar, poderemos concluir facilmente que é um ótimo negócio para essa transnacional estrangeira e um novo atentado ecológico e econômico contra um país do Terceiro Mundo.

Outras questões importantes em relação ao atentado econômico e ecológico são as seguintes:

– o Chile não tem a matéria-prima necessária para produzir alumínio: ela será importada. Durante a fase de operação, a produção anual atingiria 440 mil toneladas de alumínio, para a qual seria necessária a importação de aproximadamente 846 mil toneladas de alumina, 146 mil toneladas de coque calcinado e 43.500 toneladas de alcatrão trazidas de outros países, como a Austrália, o Brasil ou a Jamaica;

– o processo de fabricação de alumínio requer grande quantidade de energia elétrica, sendo que a existência de abundantes recursos hídricos na região de Aysén permite a geração de energia elétrica por um valor muito baixo, já que o código nacional de águas entrega os recursos de graça, o que não acontece no Primeiro Mundo;

– para conseguir uma produção anual de 440 mil toneladas, a Alumysa precisa importar 1,1 milhão de toneladas de insumos, tanto para o processo de produção quanto para o fabrico de ânodos e cátodos. Uma simples subtração permite perceber que ficariam, no mínimo, 660 mil toneladas por ano de detritos ou lixo na região;

– além disso, nos 365 dias do ano, haveria enormes e contínuas emissões de gases tóxicos, como, por exemplo, fluoreto particulado sedimentado, substâncias particuladas orgânicas (altamente cancerígenas), gases de efeito estufa (bióxido de carbono, perfluorocarbono), gases sulfurosos responsáveis pela chuva ácida, monóxido de carbono e grande quantidade de efluentes líquidos industriais;

– com uma produção anual de 440 mil toneladas, seriam produzidas 980 mil toneladas de bióxido de carbono; portanto, em 50 anos, teríamos 49 milhões de toneladas de CO2, às quais se somariam os gases do tipo perfluorocarbonos, altamente perigosos pela duração e efeito poluente, aumentando o efeito estufa e o aquecimento global do planeta;

– acrescente-se a isso uma quantidade indeterminada de metano e CO2 produzidos nos açudes, ao inundar quase 10 mil hectares de terra com matéria orgânica.

Resumindo:

– O Chile oferece vantagens comparativas para o investimento estrangeiro, devido à fraca legislação em termos de exigências ambientais, trabalhistas e tributárias, já que, neste último caso, apenas 15% iria para o fisco chileno.

– O custo ambiental, social e econômico para a região é enorme. O projeto Alumysa implica a destruição de ecossistemas únicos no Chile e no planeta. A produção de alumínio gera a liberação no ar e na água de fluoretos, colocando em risco a biodiversidade da região, a fauna e a flora terrestre e aquática, bem como a saúde humana.

– As florestas da região são ecossistemas únicos no planeta, com numerosas espécies endêmicas, várias delas ameaçadas de extinção. No Chile, a maior parte das espécies de peixes de água doce é endêmica e já se encontra sob ameaça, sendo que o projeto Alumysa aumentaria esse risco.

– Essa região seria usada como um corredor na produção de alumínio e como depósito de lixo na região, pois é importada matéria-prima para realizar um processo de produção altamente poluente, são levados para fora os lucros e deixado o lixo, incluindo resíduos tóxicos e emissões no ar e na água altamente poluentes.

– Quer dizer, é claro que estamos diante de um caso de maquila mineira, onde um país do Primeiro Mundo faz uso dos benefícios de uma economia aberta como a do Chile. E isso acontece com a aprovação, o beneplácito e, inclusive, o evidente apoio de destacados políticos chilenos, entre os quais cabe mencionar o ministro de Economia.

É por isso que organizações ambientalistas e da sociedade civil chilena fundaram a Aliança Aysén Reserva de Vida, para dizer: Alumysa?… NÃO, OBRIGADO!!!

Por: Flavia Liberona, correio eletrônico: coordinacion@noalumysa.cl ; http://www.noalumysa.cl