Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

Indonésia: os impactos sobre a saúde de quem mora nas proximidades das plantas de celulose e papel de Indah Kiat

Em 2000, a equipe de pesquisa do Banco Mundial sobre o Controle da Poluição Industrial publicou um relatório intitulado “Indústrias Verdes”. O relatório decorrente de “seis anos de pesquisa, experiências de políticas e observação direta”, descreve a planta asiática de papel e celulose PT Indah Kiat como uma “história bem- sucedida”.

As operações da planta Indah Kiat em Perawang, Sumatra contam uma história diferente, ao menos para a população local. A Indah Kiat começou sua primeira planta de celulose em Perawang no ano de 1984 com uma fábrica obsoleta importada do Taiwan. As 100.000 toneladas ao ano produzidas pela planta de celulose usava cloro e seus resíduos eram despejados no Rio Siak.

De acordo com o Banco Mundial, os protestos dos moradores locais contra a poluição da planta Indah Kiat de Perawang, levaram a “completar uma limpeza da planta”. Em 1992, a Agência do Manejo de Impacto Ambiental da Indonésia, a BAPEDAL serviu de mediadora em um acordo em que o Banco Mundial nos disse que a Indah Kiat aceitava satisfazer as demandas dos moradores.

A fábrica Indah Kiat em Perawang, atualmente abrange uma área de 400 hectares e tem uma capacidade ao ano de dois milhões de tonelada de celulose e 700.000 toneladas de papel. As novas plantas de polpa Indah Kiat usam tecnologia que é “amplamente livre de cloro”, de acordo com o Banco Mundial. O Banco Mundial pretende que nós acreditemos que Indah Kiat é “modelo ambiental”.

Infelizmente, como já é costume nesses casos, o interesse do Banco Mundial a respeito dos benefícios ambientais de um projeto industrial maciço tem pouca relação com a realidade. Em 2004, os pesquisadores Mats Valentin e Kristina Bjurling, com a ONG SwedWatch, informaram que a gerência da Indah Kiat usava uma mistura branqueadora de cloro e branqueador livre de cloro (ECF, sigla em inglês). Ainda, a gerência da Indah Kiat disse a SwedWatch que a companhia tinha planejado mudar futuramente e em forma integral para a tecnologia ECF, mas acrescentou que “um investimento desse tipo seria grande demais de arcar agora mesmo”.

Em 2001, John Aglionby do jornal britânico Guardian visitou a planta de Indah Kiat em Perawang. Ele descreveu o que observou como “ uma mácula monstruosa na paisagem”. O histórico da companhia “tem sido um catálogo de devastação ambiental, de espalhafatoso desrespeito pela comunidade local e de ignorância das leis indonésias através de uma mistura de ameaças e compensações aos funcionários,” Aglionby escreveu. O jornalista descobriu uma lista de pagamentos que a Indah Kiat fez a funcionários governamentais, policiais e oficiais do exército.

Seis anos de pesquisa, aparentemente, não ajudaram a destacável equipe de pesquisa do Banco Mundial para descobrirem qualquer compensação dada aos funcionários governamentais. O relatório “Greening Industry” do Banco simplesmente afirma que as operações da Indah Kiat em Perawang “concordam integralmente com a regulamentação nacional sobre a poluição”.

Um ano depois, o relatório “Greening Industry” desapareceu. A produtora de filmes alemã Inge Altemeier visitou Sumatra a fim de pesquisar o impacto da poluição provocada pelas plantas de celulose sobre a população local e seu ambiente.

Ela encontrou e filmou um estabelecimento ilegal da planta Indah Kiat, que a companhia usava à noite. Durante o dia, a produção não funcionava, mas havia mau cheiro no ar e peixes mortos flutuavam no rio.

Em um povoado próximo da planta Indah Kiat, as pessoas reclamavam contra o cheiro ruim e disse à cinegrafista que eles estavam sofrendo de coceira, dores de cabeça e vômitos. Um morador chamado Tasjudin mostrou seu jardim a Altemeier. Desde que a Indah Kiat chegou, não há mais cocos em suas árvores. As frutas estão cobertas de manchas pretas e apodrecem antes de ficarem maduras. “A planta Indah Kiat está destruindo nossas vidas. Mas o que eu posso fazer? Este é meu lar, tenho que morar aqui,” disse Tasjudin.

Antes de a Indah Kiat construir a planta de celulose, as pessoas podiam pescar no Rio Siak. Elas usavam o rio para beberem água e tomarem banho. A partir do momento em que os moradores não puderam beber a água do rio, eles pediram para a Indah Kiat providenciar água limpa. A companhia deu a eles uma bomba de água. Porém, os moradores encontraram que a água subterrânea também estava poluída e tinha cheiro ruim. Os moradores ficaram forçados a comprar água engarrafada para beber. Muitos ainda lavam no rio por não terem suficiente água bombeada, principalmente na estação seca.

Trabani Rab é um professor médico que tem estado monitorando os impactos da planta Indah Kiat sobre a saúde dos moradores durante vários anos. Altemeier viajou com ele e visitou povoados sobre o Rio Siak. Em dois dias, ele diagnosticou mais de 500 casos de doenças cutâneas sérias.

No início deste ano, dois pesquisadores de uma ONG indonésia, Rully Syumanda, da Forest Campaigner com WALHI, e Rivani Noor, da Comunity Alliance for Pulp Paper Advocacy, entrevistaram pessoas dos povoados instalados nas proximidades da planta Indah Kiat em Perawang. Eles também entraram em contato com pessoas que moram em Perawang. Os moradores disseram que suas verduras, plantas de pimenta e flores não crescem com regularidade, principalmente na estação seca. Durante a estação de chuvas, um grande número de galinhas e patos morreram. Eles disseram aos pesquisadores que tinham certeza de que foi por causa da fumaça com produtos químicos nocivos produzida pela planta Indah Kiat.

No período entre 1987 e 1996, o ar cheirava muito mal- disseram os moradores. Foi melhorado depois de a Indah Kiat ter instalado um sistema de filtros nas chaminés da fábrica. Porém, o ar está ainda poluído e ainda provoca problemas respiratórios, principalmente para quem visita o local.

Os moradores disseram a Syumanda e Noor que antes de a planta ter começado suas operações, os pescadores conseguiam apanhar de 40 a 50 quilos de peixe por dia no Rio Siak. Atualmente, eles são afortunados se conseguirem pescar quatro ou cinco quilos. Às vezes, eles acrescentaram, o cheiro do rio é mesmo ruim e eles não podem pescar nada. Todo mês, o rio exala um cheiro ruim durante uma semana.

Enquanto os consultores e financiadores da Indah Kiat defendem a companhia ao assinalarem os registros da companhia das emissões provindas de suas fábricas, o cheiro, a poluição o rio envenenado e a morte de peixes permanece. A população local continua sofrendo de coceiras, dores de cabeça, e doenças cutâneas incuráveis. Longe de ser um “um protótipo ambiental”, a Indah Kiat está destruindo tanto vidas quanto meios de vida.

Por Chris Lang, e-mail: chrislang@t-online.de