Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

Brasil e Chile: preocupa a pesquisa em árvores transgênicas

A biotecnologia aplicada à pesquisa de variedades de árvores transgênicas com o fim de obter certas características que facilitem a plantação como monocultura em grande escala está liderada na América Latina por dois países: Brasil e Chile.

No Brasil, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio)- o organismo responsável pelo controle da tecnologia do ADN recombinante (que implica a manipulação de genes)- aprovou em junho de 2007 as normas para a liberação, planejada no meio ambiente, de experiências com eucalipto transgênico no país.

Atualmente, a CTNBio tem 24 solicitações de aprovação de eucaliptos transgênicos. Algumas das modificações genéticas se referem ao aumento volumétrico das plantas, outras à redução e modificação de lignina (solicitação da International Paper do Brasil Ltda.), à alteração do conteúdo de Celulose (solicitação da Suzano Bahia Sul Papel e Celulose), à melhora da qualidade da madeira (solicitação da Alellyx Applied Genomics) e à tolerância ao glifosato (solicitação da Universidade Federal de Vinosa).

A empresa ArborGen Tecnologia Florestal Ltda. é também uma das que solicitaram a liberação da variedade de eucalipto transgênico que usaria uma tecnologia que permite produzir árvores com menos lignina- a substância que dá dureza à árvore- e assim reduzir os custos de extração de celulose.

Isso diminuiria os custos da indústria da celulose para papel por duas razões: porque seria possível obter maior quantidade de celulose por tonelada de madeira e também aumentar a eficiência do rendimento no processo de obtenção de celulose já que haveria menos lignina para separar da celulose.

Mais recentemente, a corrida pelos agrocombustíveis- sendo um deles o etanol- favorece o auge dos eucaliptos transgênicos. A lignina e a celulose são os principais componentes da madeira e uma árvore transgênica com menor conteúdo de lignina favoreceria a produção de celulose, matéria- prima para a obtenção de etanol. Conforme informa a Rel – Uita, as empresas do setor estão ávidas por plantar árvores transgênicas no mercado latino- americano.

Maria Rita Reis, advogada da ONG Tierra de Derechos, opina que (vide http://www.rel-uita.org/agricultura/transgenicos/brasil-eucliptus-transg.htm) a CTNBio está influenciada por pressões de mercado  e “não foi capaz de discutir em profundidade as questões de biossegurança- função que caberia à Comissão. Por exemplo, discutir a possibilidade de coexistência de culturas transgênicas e não transgênicas. Até agora, foram escasamente discutidos os direitos dos agricultores e consumidores que não querem consumir nem plantar transgênicos”.

A manipulação genética que origina as variedades transgênicas tem diversos riscos, por exemplo, a possível contaminação de outras culturas- o que seria letal para as destinadas para a indústria mobiliária ou para as árvores frutíferas. Também existem riscos para a apicultura.

No Chile, por outra parte, já no ano 2004, a empresa GenFor prometia desenvolver pinheiros resistentes à traça do broto (Ryacionia buoliana), que atinge gravemente as plantações de pinheiros.

Em agosto de 2007, formou-se um mega consórcio florestal- Consórcio Genômico Florestal S.A.- que opera no Centro de Biotecnologia da Universidade de Concepción na Região do Bio Bio.

Esse tipo de consórcios, que operam em sua maioria como empresas de pesquisa, refletem a estreita vinculação que existe atualmente entre as universidades e as empresas, facilitada pelo governo, que transfere verbas às universidades para desenhar o negócio conjuntamento com as empresas que conformam o consórcio e que são, por sua vez, fundamentais para conseguir fundos do governo.

No caso do Consórcio Genômico Florestal S.A., os pesquisadores das empresas florestais que o integram- a Forestal Arauco e a Forestal Mininco- representam, aproximadamente, 60% do patrimônio das plantações do país e mais de 75% das exportações.

Os estudos em andamento visam obter mais celulose dos eucaliptos glóbulus (ou seja mais celulose em menos superfície), conseguir árvores desta espécie mais resistentes ao frio (já que atualmente aos 400 ou 500 metros de altura morrem pelas geadas).Conforme surge do site do Consórcio, no pinheiro radiata interessa conseguir árvores resistentes ao fungo pitcher canker (câncer do pinheiro) que chegou ao Chile do exterior há cerca de cinco anos e que já devastaou plantações nos EUA e outros países. No Chile, porém, ainda não tem se desenvolvido fora dos viveiros mas receia-se que, se não for detido, conseguirá se adaptar em um prazo de cinco a sete anos.

A formação de doutores em genômica florestal- outro dos objetivos do Consórcio, pretende colocar a região como líder da genética florestal no Chile.

Diante dessa situação, inúmeras organizações nucleadas na Rede Latino- americana contra as Monoculturas de Árvores (RECOMA), encaminharam, junto aos governos do Chile e Brasil, uma carta aberta na qual expressam sua preocupação que “tem origem, em primeiro lugar, no fato de que a manipulação genética em andamento visa consolidar e espalhar um modelo de monoculturas de árvores que já demonstrou acarretar graves impactos sociais e ambientais.

Por outra parte, o uso de árvores transgênicas agravaria ainda mais os impactos já constatados sobre a água, devido a que uma das características que pretende se introduzir é o crescimento mais rápido- o que significaria um maior uso de água por parte das plantações.”

A RECOMA solicita aos governos que adotem “enfoques de precaução ao tratar a questão das árvores geneticamente modificadas” e determinem “a suspensão das pesquisas em andamento, até as dúvidas sobre os possíveis impactos, manifestadas na fundamentação da COP8 desaparecerem” (vide texto da carta na íntegra em http://www.wrm.org.uy/plantaciones/RECOMA/carta_Brasil_2008.html)