Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

Mulheres que trabalham nas plantações intoxicadas e silenciadas

Em 2002, a organização malaia Tenaganita, junto com a Pesticide Action Network-Asia Pacific (Rede de Ação contra os Pesticidas-Ásia Pacífico), emitiu um estudo que confirmou que as mulheres que trabalham nas plantações estavam sendo intoxicadas pelo uso de pesticidas altamente tóxicos, especialmente Paraquat.

Depois da emissão do “Estudo da Intoxicação por Pesticidas nas Plantações”, a Diretora da Tenaganita, Dra. Irene Fernandez disse que “Se o governo malaio tivesse implementado as leis eficientemente através de seus órgãos, o Departamento de Segurança e Saúde Ocupacional e o Conselho de Pesticidas, as mulheres não teriam sofrido.”

O que realmente fez o estado malaio em outubro de 2003 foi encarcerar Irene Fernandez por um estudo desenvolvido ha tempo por sua organização: “Abuso, Tortura e Tratamento Desumano aos Trabalhadores Emigrantes em Centros de Detenção”. Ela foi acusada de “publicar notícias falsas com intenção criminosa” e ainda está em prisão, cumprindo uma sentença de 12 meses (vide artigo infra).

Quando fique em liberdade, será acusada novamente de “publicar notícias falsas com intenção criminosa” com relação ao estudo mais recente sobre a condição das mulheres que trabalham nas plantações que são “intoxicadas e silenciadas” pela indústria da palma azeiteira? A possibilidade é muito real, por causa dos poderosos interesses econômicos envolvidos no setor da palma azeiteira malaio.

No entanto, as constatações do estudo não podem ser consideradas “falsas” de jeito nenhum, e conferem totalmente com a informação sobre as condições de trabalho nas plantações de palma azeiteira na Malásia e em outros lugares. A peculiaridade deste caso é a forte presença de mulheres afetadas por operações comuns destas companhias a respeito do uso de pesticidas.

O estudo demonstra que as mulheres que trabalham como pulverizadoras nas plantações na Malásia são intoxicadas pelos pesticidas que elas aplicam diariamente. Também reafirma que as condições de vida nas plantações são más, a atenção médica é inadequada e que as gerências dos estabelecimentos são indiferentes e às vezes insensíveis a respeito dos problemas sociais e de saúde dos trabalhadores.

Os sintomas comuns percebidos entre as mulheres que trabalham nas plantações foram fadiga, vômitos, dor nas costas, vertigem, dificuldade para respirar, problemas na pele, náusea, irritação dos olhos, dor de cabeça, sensação de opressão no peito e inchação, que são indicadores da exposição aos pesticidas organofosforados e carbamato. As amostras de sangue indicaram uma depressão da atividade da enzima acetilcolinesterase, que é confirmação da intoxicação por pesticidas. O estudo também confirmou que a população da amostra estava aplicando pesticidas do tipo organofosforados, o que fica evidenciado por uma queda dos níveis de acetilcolinesterase no plasma e no sangue. Depois de uma interrupção de um mês na aplicação, os níveis enzimáticos dos pulverizadores selecionados aumentaram, reconfirmando que estavam intoxicados por organofosforados quando as amostras foram obtidas um mês antes.

O estudo confirmou que um dos principais pesticidas utilizado nas plantações é Paraquat (herbicida). A intoxicação por Paraquat está claramente demonstrada nos levantamentos e entrevistas com os trabalhadores, e evidenciada pelos exames médicos. As mulheres sofriam sangraduras do nariz, lacrimação, dermatite de contato, irritação da pele e feridas, descoloração das unhas, queda das unhas, inchação das articulações e ulcerações abdominais. Isso é apesar do fato que a Malásia tem classificado Paraquat como pesticida Classe I (extremamente perigoso). Para piorar a situação, o estudo apontou que espera-se que a área plantada com palma azeiteira aumentará de 2,7 milhões de hectares (1998) para 4,3 milhões de hectares em 2020, com um conseqüente aumento no uso dos agroquímicos. Espera-se que o uso do Paraquat aumente de 5 milhões de litros (2000) para 7,4 milhões de litros em 2020.

O estudo constatou que as mulheres que trabalham nas plantações não podiam ler as etiquetas em inglês e malaio e não podiam ler as etiquetas das embalagens dos pesticidas, quando havia. Na maioria dos casos, as etiquetas são removidas. Era comum ver que os pesticidas eram usados em concentrações maiores às requeridas, em “coquetéis” cujos ingredientes não eram conhecidos; e às vezes as gerências dos estabelecimentos escolhiam não divulgar os nomes dos pesticidas usados aos pulverizadores.

Além disso, o equipamento de pulverização vazava, o que implicava perigos adicionais de derramamento e toxicidade para os aplicadores. Além disso, o equipamento era armazenado nas casas dos trabalhadores, colocando em risco à família toda.

O estudo também constatou que as gerências dos estabelecimentos não forneciam qualquer treinamento sobre precauções e procedimentos de segurança a serem seguidos no manuseio de pesticidas. Não havia materiais de capacitação disponíveis nas línguas locais para os trabalhadores e os profissionais médicos. O equipamento protetor fornecido, se havia, era inadequado para as condições de calor e umidade locais e portanto não é utilizado pela maioria dos pulverizadores. Esses fatores agravaram o fator de risco para trabalhar nas plantações.

Para piorar a situação, o estudo evidenciou que os profissionais médicos não eram treinados adequadamente para reconhecer os sintomas da exposição aos pesticidas, e geralmente os menosprezavam como problemas menores de tosse, dores de cabeça, etc. Isso subestimava ainda mais a situação real a respeito da intoxicação por causa da exposição aos pesticidas. Havia uma falta alarmante de sensibilidade entre o pessoal médico, os paramédicos e os Assistentes de Hospital, o que agravava sua incapacidade para solucionar os problemas das mulheres. Como a maioria do pessoal médico era constituída por homens, as mulheres não podiam exprimir e comunicar sua condição e achaques.

O que antecede será considerado “publicar notícias falsas com intenção criminosa”? Não deveriam o governo malaio e seus órgãos –o Departamento de Segurança e Saúde Ocupacional e o Conselho de Pesticidas- ser acusados de “silenciar alegações verdadeiras com intenção criminosa”?

Artigo baseado em informação de: “Women Plantation Workers Poisoned and Silenced”., Tenaganita/PAN-Asia Pacific, 2002, http://www.panap.net/highlightsA1.cfm?id=9&hiliteid=HILITE04#Top ; “A Study of Pesticide Poisoning in the Plantations”, Tenaganita/PAN-Asia Pacific, 2002
http://www.panap.net/highlightsA1.cfm?id=16&hiliteid=HILITE04