Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

O grande circo da Maquiagem Verde

Ao final deste mês, empresas, sociedade civil e nações do mundo se reúnem no Rio de Janeiro para a conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável, aceitando a tarefa aparentemente impossível de produzir soluções aos desafios ambientais com que nos deparamos. Desmatamento, desertificação, esgotamento dos oceanos, poluição de rios, perda da biodiversidade e aquecimento global são uma ameaça real a toda a vida na Terra.

Nem o momento, nem o lugar da reunião são coincidências. Há exatamente duas décadas, o Rio de Janeiro sediou a importantíssima Cúpula da Terra, conhecida como Rio 92. Essa conferência da ONU desencadeou um sentido global de urgência: o planeta e seus habitantes estão em risco, e resta pouco tempo para agir. O mundo precisava de um novo modelo baseado em “desenvolvimento sustentável”. Governos, empresas e ONGs concordam em que somente por meio da cooperação se pode enfrentar esse grande desafio.

Mas as grandes corporações não queriam seguir as novas regras para mineração, pesca, agricultura ou silvicultura, afirmando que metas voluntárias são muito mais eficientes do que leis e regulamentações ambientais e sociais compulsórias. Na visão de negócios do crescimento econômico sustentável, o livre comércio e os mercados abertos continuam sendo os pilares principais. Somente ligando proteção ambiental à lucratividade se podem salvar os vibrantes ecossistemas do mundo. Essa visão estreita de “desenvolvimento sustentável” conquistou muito apoio em todo o mundo.

Antes da Rio 92, as corporações e a indústria eram amplamente consideradas como as principais causadoras das perdas ambientais e da injustiça no mundo. As mineradoras eram responsabilizadas pela poluição de rios, os movimentos indígenas protestavam contra o desmatamento e os bancos eram criticados por seus polêmicos investimentos em todo o mundo. Marcas eram relacionadas à destruição das florestas, à poluição do ar e a abusos aos direitos humanos, e o mundo empresarial tinha um grande problema de credibilidade.

A Cúpula da Terra marcou uma virada na história. Governos prometeram criar empregos verdes e apoiaram uma economia verde, os consumidores começaram a comprar produtos sustentáveis e as multinacionais propagandeavam sua Responsabilidade Social Corporativa. Empresas petrolíferas patrocinavam projetos que visavam água limpa, bancos de investimentos financiavam programas educativos e mineradoras plantavam árvores.

Se a Rio 92 representou um alerta desse porte, seria de imaginar que agora vivêssemos em um mundo verde, justo e sustentável ou, pelo menos, se esperaria que o mundo fosse um lugar melhor do que era há duas décadas. Mas os fatos e as cifras são bastante desanimadores. Apesar de todas as pretensões de sustentabilidade, o total da extração de matérias primas aumentou em 40% desde a Cúpula da Terra. A produção de plásticos dobrou. Hoje em dia, vivemos e consumimos como se tivéssemos dois planetas Terra à nossa disposição, e as regiões e os países ricos ainda estão usando cinco vezes mais recursos do que seus equivalentes pobres. Os oceanos são mais explorados do que há vinte anos, e emitimos 40% a mais de CO2 do que em 92.

A Cúpula da Terra deu origem a outras conferências da ONU que trataram de questões relativas à mudança climática, ao desaparecimento da biodiversidade e à desertificação. Mas todas essas conferências fracassaram, pois parecem sempre propor soluções falsas para problemas reais. Tingir a economia de verde pode parecer uma boa ideia, mas será que vai realmente enfrentar o centro do problema?

Isso será debatido em Bruxelas, durante o Grande Circo da Maquiagem Verde (The Big Greenwash Circus), em 23 de junho. Coincidindo com a Cúpula Rio+20, esta conferência organizada pela ONG belga Climaxi pretende tratar de algumas das soluções falsas para a crise climática. A estratégia da “maquiagem verde” tem sido bem sucedida muitas vezes para que empresas e organizações convençam o público de que estão lidando com os problemas de maneira séria. Elas podem usar a logomarca de uma ONG conhecida ou de uma empresa confiável, enquanto, na realidade, as práticas não sustentáveis continuam.

Nesta conferência, vários tópicos serão discutidos em oficinas de palestrantes internacionais; a imagem verde de bancos para disfarçar seus investimentos sujos, OGMs e a RTRS (a “soja responsável”), o comércio de carbono e os mecanismos de desenvolvimento limpo, o mito de nomes como FSC (Conselho de Manejo Florestal), MSC (Conselho de Manejo Marinho), RTRS, etc.

Além das oficinas, também serão apresentados dois documentários provocadores: “Gasland”, um filme sobre gás de xisto nos Estados Unidos, e “The Silence of the Pandas – what the WWF isn’t saying”. Este segundo documentário, feito por Wilfried Huismann e a TV alemã WDR, gerou muita polêmica quando foi lançado na Alemanha em função de suas críticas à WWF. A organização de preservação da natureza foi à justiça alegando acusações falsas e imprecisões, e exigiu a proibição de exibição do filme. A Climaxi convidou o cineasta para apresentar o filme e explicar as pesquisas que fez sobre essa organização mundialmente famosa, e um representante da WWF participará do debate após o filme.

Nesta conferência, será entregue um Prêmio da Maquiagem Verde à empresa ou organização mais capaz de enganar o público com uma imagem verde e sustentável para encobrir suas práticas sujas e seu impacto negativo. Pode-se votar nas cinco indicadas, listadas na página da Climaxi na internet, e a vencedora será anunciada no final de conferência em Bruxelas.

An-Katrien Lecluyse e Leo Broers, jornalistas, ankatrien.lecluyse@gmail.com e
leogargouille@yahoo.fr