Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

Amazônia: IIRSA abre a porta para a penetração da floresta

À medida que avançam as políticas desenvolvimentistas e neo extrativistas dos governos da região, avança a destruição da natureza e o etnocídio genocida dos povos originários que a habitam. A encruzilhada é mais premente do que nunca: ou a penetração capitalista é detida ou os povos indígenas e as florestas desaparecerão. Ou é detida a Iniciativa para a Integração da Infra- estrutura Sul- americana (IIRSA) que é encorajada decididamente pelo estado brasileiro e os demais governos da região, os bancos multilaterais e as transnacionais, ou a floresta e os índios serão imagens e lembranças do museu do horror da violenta conquista da última fronteira interna continental para ser aberta ao saqueio de seus recursos naturais, da mudança irreversível de seu ecossistema e da extinção física de suas culturas.

O Brasil tornou-se uma das dez maiores economias do mundo sendo que a brasileira representa mais da metade da atividade econômica sul-americana. O PIB brasileiro corresponde a 55% do PIB da América do Sul. O novo monstro do capitalismo estabeleceu uma meta: abrir a Amazônia para a exploração maciça de seus recursos naturais, completando seu domínio territorial e sua inexorável marcha rumo ao oeste.

O pré- requisito complementar para seu cumprimento era quebrar o obstáculo geográfico que as grandes florestas e os grandes rios representaram historicamente como freio à penetração do transporte, as máquinas, os mercados e as grandes corporações. Daí que a abertura do território amazônico e sua vinculação física com os portos de exportação dos dois oceanos mais importantes da Terra, o Atlântico e o Pacífico, e através deles com o restante do mundo globalizado, é o objetivo principal da chamada Iniciativa para a Integração da Infra- estrutura Sul- americana, mais conhecida por sua sigla IIRSA, que entrou em andamento em agosto do ano 2000 em Brasília. Tão só dez anos e alguns meses depois, a IIRSA está prestes a atingir seu objetivo.

Quando forem concluídas as obras de construção da ponte Billinghurst sobre o rio Madre de Dios, que unirá a cidade de Puerto Maldonado com o casario de El Triunfo, ambos no Departamento de Madre de Dios, no extremo sudeste da República do Peru, e com isso culmine a construção do chamado Corredor Viário Interoceânico Sul Peru- Brasil, a história sul- americana mudará para sempre.

Até agora, a navegação dos rios era a forma mais efetiva de penetração da selva. Quando se produziu o fenômeno do auge da extração da borracha entre os anos 1870 e 1914, a primeira incorporação forçosa da Amazônia continental ao mercado mundial, os rios se tornaram a via de ingresso de milhares e milhares de pessoas alheias à floresta que ocasionaram um genocídio entre os povos indígenas que até hoje continua sendo ocultado e silenciado.

As atuais fronteiras entre o Brasil, Peru e Bolívia nos territórios atravessados agora pela interoceânica e sua área de influencia nascem desta invasão violenta que escravizou povos inteiros para obrigá-los a trabalhar na coleta da borracha e que levou à desaparição física de muitos deles. Alguns se refugiaram no interior do monte, nas cabeceiras dos rios onde já não eram navegáveis, e assim puderam evitar o extermínio. São aqueles que hoje conhecemos como “povos indígenas isolados ou povos indígenas isolados voluntariamente”.

Um século depois dessa hecatombe étnica, muitos desses povos que escolheram a liberdade ao aniquilamento, foram forçados através de missões religiosas, a sair de seu isolamento e se encontram na situação chamada de “contato inicial” com a sociedade nacional hegemônica de seus países, situação de extrema vulnerabilidade para a sobrevivência de seu modo de vida e de sua cultura, ameaçados por sua vagarosa desaparição, tragédia que se conhece como etnocídio.

Hoje, uma interconexão como a que provocará a ponte, por mais distantes ou abandonadas do ponto de vista nacional que pareçam as regiões onde influirá, é possível para essa nova ordem mundial, baseada no desenvolvimento de forças produtivas em escala global e onde, por isso mesmo, as agressões e as ameaças se tornaram planetárias. A ponte, insistimos, é o símbolo perfeito da IIRSA que é o outro nome da globalização na América do Sul.

Sua inauguração não fará outra coisa que acelerar os processos de genocídio e etnocídio históricos contra os povos indígenas, provocando a desaparição definitiva dos últimos povos indígenas isolados da floresta amazônica ao serem invadidas suas terras em decorrência da nova dinâmica de agressão que acarretará a estrada.

A situação atual das comunidades indígenas é caracterizada pelos conflitos permanentes pela defesa de seus territórios, o que acontecerá quando as empresas já não tenham barreiras para poder ingressar aonde eles quiserem, lá onde houver um recurso natural para ser explorado?

Se a penetração capitalista não for detida, os povos indígenas desaparecerão, desaparecerão suas comunidades, seus modos de vida, seus costumes, suas tradições, e uma vez desaparecidos os povos que defendiam a floresta- porque era essencial para sua sobrevivência e sua cultura- desaparecerá também a própria floresta, queimada, desflorestada e arrasada para a ocupação definitiva de seu espaço para os negócios agrícolas e pecuaristas extensivos.

Extraído de “IIRSA y los pueblos indígenas aislados y vulnerables. El Puente Billinghurst y la Interoceánica: punto de no retorno para el genocidio y la devastación de la Amazonía”, de Pablo Cingolani,  21/11/10, enviado pelo autor. O documento na íntegra pode ser lido em: http://alainet.org/active/42481&lang=es

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