Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

Demissões na FIBRIA Celulose

No dia 25 de agosto de 2015, trabalhadores da empresa Fibria usaram da tribuna da Câmara Municipal de Três Lagoas para tornar públicas as demissões praticadas pela empresa, em represália à mobilização dos trabalhadores para criação do sindicato da categoria. Na oportunidade leram o manifesto como segue:

“A Fibria Celulose, empresa que se instalou em Três Lagoas-Ms em 2008, atraída pela de impostos do estado e do município, e com investimento estatal do BNDES, tem revelado lucros crescentes a cada semestre. Recentemente anunciou ampliação da planta industrial com a construção de mais uma unidade. E novamente a espera de gordos investimentos do BNDES e isenção fiscal.

Olhado este crescimento, como entender as demissões de operários? Somente nas últimas semanas foram cerca de 18 demissões. E o mais grave em alguns casos trabalhadores com doença ocupacional foram demitidos.

O lucro da Empresa é resultado da soma de diversos fatores, como empréstimos subsidiados, isenção fiscal, inserção no mercado externo e principalmente, eficiência na produção. Este ultimo é garantido pelo trabalho de operários que recebem os menores salários da categoria quando comparados aos salários pagos a trabalhadores de outros estados.

Em vista da falta de uma tradição sindical combativa a empresa tem garantido os lucros crescentes com base nas longas jornadas de trabalho com baixos salários. Portanto é inaceitável que demissões ocorram quando os operários tentam organizar um  sindicato para defender os interesses da  categoria florestal.

A EMPRESA NÃO CALARÁ A VOZ DO TRABALHADOR”.

 

RELATO DOS TRABALHADORES DA EMPRESA FIBRIA, UNIDADE DE TRES LAGOAS.

O  relato (gravado em áudio) feito pelos trabalhadores da Fibria para a CPT/MS, no dia em que participaram da sessão da Câmara municipal, revelam graves irregularidades praticadas pela empresa, Que, todavia, em seus relatórios de sustentabilidade, apresenta a relação trabalhador-empresa como se fosse um coto de fadas – como é possível perceber no trecho que segue extraído do referido Relatório.

“A Fibria não coloca obstáculos ao exercício da atividade sindical dentro da empresa e negocia espaço e tempo adequados para isso. Da mesma forma, permite que os sindicatos divulguem, nos quadros da companhia, assuntos do interesse dos empregados.[…] A Fibria não demite nem realiza qualquer tipo de retaliação aos empregados que assumem posição de diretoria nos sindicatos com os quais se relaciona.” (Fibria: Relatório de Sustentabilidade 2011).

No entanto, não é a mesma realidade contada pelos trabalhadores. Segundo o relato de um dos operadores que trabalhou na fibria por 5 anos, e agora demitido cumprindo aviso prévio,   afirma que as condições de trabalho na empresa não são das melhores, visto que trabalham em ambientes cheio de insetos peçonhentos e é comum  “trombar com cobras, escorpiões, aranha”. Informa que usam Epis, mas sempre se corre risco, inclusive já houve casos de trabalhadores ofendidos por insetos nesta unidade de Três Lagoas. Trabalham por longo período, saem às 4 horas da manhã ( quem trabalha de dia) e retornam por volta das 18 horas. Trabalham com maquinários velhos, degradados, com bancos estourados, o que tem causado doenças ocupacionais.  Segundo o entrevistado há uma lista vasta de companheiros que contraíram doenças ocupacionais como muscoesqueléticas, no ombro, problemas na coluna como hérnia de disco, principalmente devido aos maquinários estarem sem manutenção.

“Eu mesmo já trabalhei com maquinário com problemas no banco, banco que não inflava, banco que não tinha regulagem. Operador  de porte maior trabalhava na mesma posição que é de um operador de porte menor. Ou trabalhava espremido ou trabalhava encolhido. Tanto é que tem muitos colegas atualmente que tem problemas de coluna, problema no ombro por trabalharem com maquinas sem apoio no braço. Trabalha segurando o peso do joestig no braço mesmo” (trabalhador da Fibria).

Segundo este mesmo trabalhador a  empresa oferece alimentação. A alimentação é razoável e é servida na máquina. Não tem um lugar adequado para servir o almoço.

“Como a gente trabalha de dia, o operador não pode ficar com a máquina ligada enquanto ele tem o descanso dele. Então ele desliga a máquina e a máquina esquenta muito rápido por estar  no sol e pelo fato de ter o ar condicionado desligado. Tem de comer sentado do lado de fora da máquina, nas pilhas de madeira ou no sol quente, como a gente já cansou de comer. Inclusive a empresa foi autuada por isso aí. […] Muitas vezes nem para pra comer, porque ficar no sol quente, insetos picando, muitos tipos de pernilongo. Muitas vezes o trabalhador nem acaba fazendo a rejeição  inteira porque tá muito  calor ou tá com medo de um inseto peçonhento picar ele” (trabalhador da Fibria).

A hora de descanso do almoço nem sempre é cumprida pelos trabalhadores  porque tem de cumprir metas e se vêm forçados a reduzir a hora do descanso.

“Hora de descanso que muitas vezes não é obedecida porque pelo funcionário que tem de cumprir metas e às vezes ele não tem a habilidade de entregar a produção, então ele às vezes compensa com a hora da refeição dele, a hora do descanso dele. […] Todo funcionário ele tem uma meta diária. Metas horas. Então se por um acaso, algum funcionário não atingir essa meta o gráfico dele vai lá embaixo. Existe um quadro de desempenho que fica no módulo. Então geralmente o funcionário que está lá em baixo de certa maneira ele é recriminado pelos gestores e é motivo de gozação pelos companheiros. Então muitos companheiros eles se sentem pressionados a produzir um pouco mais pra não ser o lanterninha. Prá não se aquele cara que ficou por último. Pra não sofrer esse tipo de assedio do patrão. Então se ele tiver que passar sem o almoço, ele passa sem o almoço. Se ele tiver que engolir a refeição em dez minutos e já voltar para o equipamento ele volta.E isso não é nem em nem dois companheiros que já relatou isso” (trabalhador da Fibria).

Quanto as necessidades fisiológicas, as mesmas são feitas no mato.

“Olha lá não tem banheiro. Não tem banheiro porque tem o banheiro do módulo, mas o módulo fica distante das máquinas. Então e o operador também não tem como ele se deslocar até o módulo. Então de fato quando o operador tem de fazer suas necessidades fisiológicas ele tem de procurar uma moita, tem de procurar um mato mais alto assim prá escapar do olhar dos companheiros que certamente vão tirar sarro. Ele tem que se afastar pro mato correndo risco mais risco ainda de encontrar um inseto peçonhento que posa vir a ferir a saúde dele, prejudicar a saúde dele” (trabalhador da Fibria).