Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

O cartão de crédito biodegradável da Sustain: Green, os tênis “Air”, da Nike, e os créditos de carbono que ninguém quer comprar

Sustain_GreenPor  Chris Lang

“Os cartões de crédito que ajudam o planeta”. Esse é o slogan de vendas de uma empresa chamada Sustain:Green. Com o novo cartão de crédito biodegradável da empresa, você pode “combater a mudança climática”, “financiar a preservação das florestas tropicais” e “reduzir sua pegada de carbono”.

Não parece ótimo? O slogan de vendas da empresa não diz nada estranho sobre redução de consumo, redução de emissões, responsabilização de empresas ou governos, ou campanhas para manter os combustíveis fósseis no subsolo.

Na primeira vez que usar o cartão, você ganha 5.000 libras em compensações. Depois disso, a Sustain:Green compra duas libras em compensações de carbono para cada dólar gasto no cartão.

Isso significa um crédito de carbono para cada 1.000 dólares gastos no cartão de crédito (pressupondo-se toneladas dos Estados Unidos, com cada tonelada equivalendo a 2.000 libras).

Quanto vale um crédito de carbono?

Como era de se esperar, a Ecosystem Marketplace gosta do cartão de crédito da Sustain:Green. Em um artigo publicado no mês passado, sobre o lançamento do cartão de crédito, a Ecosystem Marketplace repete o discurso de vendas da Sustain:Green:

Se as compensações de carbono fossem compradas separadamente pelos consumidores, através da loja de compensação da Sustain:Green, uma quantidade equivalente de créditos de carbono custaria ao consumidor 136 dólares com base no preço de 15 dólares por tonelada pelo qual são vendidas as compensações na loja online.

O site da Sustain:Green não diz onde estão os projetos que geram seus créditos de carbono de 15 dólares, mas 15 dólares por crédito é muito caro. Em 2013, o preço médio dos créditos de carbono voluntários foi de 4,90 dólares, de acordo com o documento State of the Voluntary Carbon Markets 2014, da Ecosystem Marketplace.

Nós sabemos de onde vêm os créditos de carbono ligados ao cartão de crédito da Sustain:Green: da multinacional de equipamento esportivo Nike. A partir de 1971, a empresa havia usado o gás hexafluoreto de enxofre (SF6) nas solas “air” de seus tênis. O problema é que o SF6 tem um potencial de aquecimento global 22.200 vezes maior do que o do dióxido de carbono.

A Nike descobriu o problema em 1992, em um artigo publicado em uma revista ambiental alemã sobre o SF6. A primeira reação da Nike foi não fazer nada. A produção de SF6 da empresa atingiu o pico cinco anos mais tarde, quando equivalia às emissões de cerca de um milhão de carros.

Mas a Nike tinha começado a monitorar seu uso e suas emissões de SF6 e, em 2006 (apenas 14 anos depois de descobrir o problema), substituíra o SF6 de seus tênis por nitrogênio. No processo, conseguiu gerar 7.984.006 créditos de carbono. Os créditos foram registrados no American Carbon Registry, um projeto da Winrock International.

Mas encontrar um comprador para milhões de créditos de carbono da Nike se revelou complicado. Steve Zwick, da Ecosystem Marketplace, escreveu sobre a Nike e o SF6 em 2011:

Embora a redução – e o custo para alcançá-la – tenha sido substancial, a oferta de créditos industriais como os de SF6 está em excesso.

Em uma tentativa de incentivar os compradores, a Nike anunciou que doaria todo o dinheiro da venda dos créditos de carbono do SF6 a projetos florestais no Brasil. Para isso, usou uma coisa chamada de “Mata no Peito”, que se descreve como uma “coalizão criada para apoiar organizações e comunidades locais na proteção e replantio de florestas em todo Brasil”.

Em seu site, a Mata no Peito explica que se podem comprar créditos de carbono diretamente, via Hub Culture ou Global Giving. A Global Giving, por sua vez, está vendendo os créditos de carbono da Nike em seu site, por 5 dólares cada um.

A Mata no Peito tem o seguinte anúncio em seu site:

London Carbon Market se torna o primeiro parceiro da Mata no Peito via Hub Culture.

Mas esse negócio aconteceu em 2011. Steve Zwick, da Ecosystem Marketplace, informou sobre ele naquela época, com a manchete: “Como a Nike transformou créditos industriais não vendidos em uma fonte de riqueza florestal”.

A “riqueza” de 40.000 dólares.

Em 14 de abril de 2015, Mary Grady, Diretora de Desenvolvimento de Negócios do American Carbon Registry, escreveu uma atualização sobre a Mata no Peito no site da Global Giving. Grady explica que

até o momento, os parceiros individuais e empresariais da Mata no Peito levantaram coletivamente 40.000 dólares e retiraram 19,5 milhões de libras de CO2 da atmosfera através da “aposentadoria” de créditos de carbono para compensar suas pegadas de carbono – o equivalente a tirar 1.825 carros das ruas por um ano.

O site da Mata no Peito foi registrado em agosto de 2010. Em outubro de 2012, havia arrecadado 35.000 dólares, e está parado em 40.000 dólares há mais de um ano. A receita global da Nike em 2014 foi de 27,8 bilhões de dólares.

Depois de mais de quatro anos, a Mata no Peito vendeu menos de 10.000 créditos de carbono. Em sua atualização de abril de 2015, Grady acrescenta que está ansiosa para anunciar o primeiro projeto da Mata no Peito nos próximos meses.

Quem está por trás da Sustain:Green?

O diretor-executivo da Sustain:Green Green é Arthur Newman. A Ecosystem Marketplace o descreve da seguinte forma:

Arthur Newman trabalhou anteriormente em Wall Street e tem foco no mercado de emissões nos Estados Unidos e no uso de créditos de carbono para compensar a pegada de carbono, na condição de ex-sócio da Carbon Capital Advisors. Ele cita essa experiência de trabalho com grandes organizações no mercado de carbono como fonte de inspiração para o desenvolvimento do cartão de crédito.

Na verdade, de acordo com o seu perfil do LinkedIn, a carreira de Newman em Wall Street se deu entre 1994 e 2001, quando ele trabalhou para a Gerard Klauer Mattison, então chamada Schroders, e depois, para o ABN AMRO, concentrando-se em empresas na internet e novas mídias. Eu suponho que o estouro da bolha pontocom não deve ter ajudado muito a sua carreira.

Desde 2002, Newman foi proprietário da empresa de sua família, The Sweet Tooth, que fabrica chocolates especiais. A partir de 2003, trabalhou para “um pequeno banco de investimentos” chamado Halpern Capital. (De acordo com os últimos documentos registrados na Securities and Exchange Commission, no final de 2012, o Halpern Capital tinha ativos de 280.613 dólares e passivos de 175.360 dólares. Portanto, realmente não era um dos maiores bancos de investimento.)

A experiência de Newman com os mercados de carbono vem de seu envolvimento com a Carbon Capital Advisors, “uma empresa de consultoria com foco em compensações de carbono”, criada em 2011.

De acordo com a Ecosystem Marketplace, para dar nome ao cartão de crédito, Newman se inspirou em seu trabalho com grandes organizações no mercado de carbono. Quais as grandes organizações com as quais Newman trabalhou na Carbon Capital Advisors?

O site da empresa não dá pistas. De acordo com o Formulário ADV (de assessores de investimentos) da empresa, registrado junto à Securities and Exchange Commission em 17 de Abril de 2015, a Carbon Capital Advisors não teve clientes no último ano fiscal.

A Carbon Capital Advisors tem uma conta na Climate Action Reserve. A empresa é a titular da conta para um grande número de créditos de carbono na Climate Action Reserve, a grande maioria dos quais é de contas em nome de indivíduos.

A Carbon Capital Advisors é titular de conta para as quatro empresas a seguir, nenhuma das quais eu descreveria como grandes organizações (embora duas delas sejam bastante interessantes):

  • org (106.851 créditos) – registrada em Jersey, em maio de 2013, e dissolvida em outubro de 2014.
  • R. Consultoria Elvin LTD (742 créditos) – registrada no Reino Unido em janeiro de 2011. Em março de 2013, a empresa tinha 60.086 libras no banco.
  • Windward Capital (500 créditos) – registrada no Reino Unido em abril de 2012. Teve sua liquidação pelo Tribunal Superior em fevereiro de 2015, por ludibriar investidores com alegações falsas e enganosas.
  • Tricon (67.960) – a Tricon Ventures foi registrada em abril de 2013. Em junho de 2013, “keith johnson” deixou um comentário no REDD-Monitor, explicando: “Eu também recebi um telefonema da Stein House tentando me convencer a investir na empresa de exploração de petróleo Africa New Energies Ltd. Com as ações a 10 pence cada, o dinheiro tem de ser pago à Tricon Ventures (Reino Unido) Ltd”. O site da Tricon ainda existe, mas, de acordo com OpenCorporates, o diretor da empresa Cody Cain renunciou em agosto de 2014.

Cain também é diretor de uma empresa chamada YC Ventures, que mudou de nome em janeiro de 2013 (era Yankee Carbon). Cody Cain registrou o site yankeecarbon.com em junho de 2012. Em 16 de abril de 2015, uma proposta para cancelar o registro da empresa foi publicada no Diário Oficial de Londres.

A Yankee Carbon foi uma das empresas listadas no site da MH Carbon Nominees como fornecedores/responsáveis da MH carbono Ltd (um dos primeiros esquemas  fraudulentos com créditos de carbono  a aparecer no REDD-Monitor):

 

Yankee_Carbon