Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

Outro olhar sobre “fazer conservação”: o Kawsak Sacha do povo quéchua de Sarayaku, no Equador

A maior parte dos governos, ONGs e empresas está promovendo o aumento de Áreas Protegidas e em regime de conservação em todo o mundo. Mas o que significa conservação? Marlon Santi, do povo quéchua de Sarayaku, nos explica o que os povos amazônicos do Equador consideram como conservação.

Ph: Comunidade Sarayaku

Kawsak Sacha: Selva vivente e selva dos seres.

Os povos e nacionalidades amazônicas praticam um sistema de vida estruturado na convivência com a natureza, em uma verdadeira encarnação em nossos corpos e espíritos, que proporciona os comportamentos vitais a cada um de nós e aos seres vivos que nos cercam.

Para os indígenas que vivem na Amazônia, a floresta é vida. Cada espaço tem seus senhores e seus donos. Em cada um deles, existem Llakta (aldeias) com populações chamadas de Runas, que também são as casas e os refúgios dos animais sagrados.

Tudo o que compõe o Kawsak Sacha está entrelaçado. (1)

A maior parte dos governos, ONGs e empresas está promovendo o aumento de Áreas Protegidas e em regime de conservação em todo o mundo. No entanto, esse modelo de “conservação sem pessoas” aprofundou a imposição de uma visão colonialista e racista da conservação em nível global. Ao se criarem mais Áreas Protegidas ou áreas em regime de conservação, não se questiona quem controla a terra, quem mora nessas áreas ou as atividades que se sustentam a partir dali.

Por outro lado, a criação de mais áreas em regime de conservação cumpre um papel no mercado de “compensações”, seja de emissões de carbono, perda de biodiversidade ou outros supostos “serviços” ambientais e ecossistêmicos. Em outras palavras, são estabelecidas mais áreas “protegidas” para compensar a poluição e a destruição crescentes em outros lugares. Esse enfoque aprofunda uma política que permite a empresas e governos continuar destruindo florestas, construindo grande obras de infraestrutura, extraindo cada vez mais matérias-primas, etc. – desde que se estabeleça uma quantidade “equivalente” de natureza “protegida” ou “recriada”.

Portanto, o esforço para aumentar as Áreas Protegidas está direta ou indiretamente ligado a despejos forçados, assédio, violência, violações aos direitos humanos, desmatamento, militarização de territórios, etc.

E esse modelo de conservação predominante não considera os Povos Indígenas ou outras comunidades que dependem das florestas como agentes fundamentais na preservação e no cuidado das florestas. Ao contrário, na grande maioria das Áreas Protegidas e áreas em regime de Conservação se proíbe não apenas que os Povos Indígenas usem suas florestas como fazem há gerações, mas até a própria presença humana.

A seguir, apresentamos uma entrevista com Marlon Santi, do povo quéchua de Sarayaku, cidade que historicamente tem resistido à entrada de empresas petrolíferas, mineradoras e madeireiras. Ele explica o que os povos amazônicos do Equador consideram conservação.

WRM: Como povo quéchua de Sarayaku, de que formas vocês preservam a floresta e seu território? Em outras palavras, o que significa “fazer conservação” para vocês?

Marlon:
Para nós, “conservação” é considerar a selva como um ser vivo, ou selva vivente. Só assim entendemos o que devemos fazer como “conservação”.

Esse é um conceito filosófico nosso, pois consideramos que os rios, as lagoas, as árvores, o ar, as montanhas, estão vivos. Esse preceito filosófico não é compreendido pelo outro mundo, o ocidental. Mas esse entendimento mudaria muito o sentido da vida e o sentido da mãe natureza, e de nós, seres humanos, que fazemos parte dela. Ao não se entender isso, muitos espaços de vida foram convertidos em Parques Nacionais, mas isso é camuflagem, já que o Estado equatoriano pode violar essa Área Protegida quando quiser explorar qualquer “recurso natural” que encontre nela. Então, vê-se que eles não entendem o sentido da vida, da selva vivente.

Já foi demonstrado, em diversas ocasiões, que as florestas mais bem preservadas do mundo – mesmo comparadas às que estão em Áreas Protegidas – estão em territórios indígenas.

WRM: Como são afetadas pelas áreas protegidas?

Marlon:
A criação de Áreas Protegidas impede a nossa relação com o outro ser vivente, que é a floresta. Essa proibição separou por décadas o direito aos rituais de convivência com a natureza. O controle do governo chega, mas não garante nossa sobrevivência.

Assim, a dinâmica social de nosso viver cotidiano é alterada. Os lugares sagrados permanecem dentro das Áreas Protegidas e não se volta lá.

Precisamos que os territórios dos povos indígenas sejam os novos espaços de “conservação”, e devemos protegê-los. Os Estados devem respeitar as nossas formas de pensar e preservar. No caso da minha aldeia quéchua de Sarayaku, queremos o reconhecimento da categorização de KAWSAK SACHA, que significa Floresta Viva.

WRM: O que você considera essencial para que as florestas sejam preservadas? E qual é o papel dos povos indígenas?

Marlon:
Nós temos uma relação próxima com a Mãe Terra; é aí que prevalece o respeito, e não a ganância; isso se chama “harmonia”.

Para viver bem e para que as florestas sejam preservadas, é essencial que não se use o nome do desenvolvimento nem venham destruir irremediavelmente. Como se pode devolver coisas à água ou à lagoa quando se derrama petróleo ou quando são liberados produtos químicos? Porque o nosso mundo muda com isso, e eu chamo de mundo esse espaço de vida.

Isso vem acontecendo há séculos, da Revolução Industrial até os dias atuais. Poluir para explorar coloca nossas vidas em sério perigo. Quando há poluição, não se está violando apenas um direito, e sim o círculo de todo um processo vital. Polui a água, o som, o céu, as árvores, o ar, etc.

Nós, os Povos Indígenas, impedimos que isso acontecesse. Mas agora, muitos territórios desses povos fazem fronteira com Áreas Protegidas ou zonas de “conservação”, e essas zonas geralmente proíbem a entrada e separam as comunidades de suas terras agrícolas e/ou seus meios de subsistência, de seus territórios ancestrais. Além disso, costuma-se gerar violência por meio dos “ecoguardas” que impedem a entrada e o trânsito de pessoas nessas áreas, tornando ainda mais difícil cuidar e evitar a destruição.

Mais informações sobre a Kawsay Sacha podem ser encontradas nos vídeos a seguir:
Kawsak Sacha para el mundo
Kawsak Sacha, Selva Viviente

(1) Sarayaku, Kawsak Sacha – Selva viviente