Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

“Para ter saúde plena, nos [as mulheres] queremos fazer a diferença”: uma voz das florestas do Brasil

San_Raimundo

Francisca Maria tem 36 anos, mãe de 3 filhos, casada há 17 anos. Ela também é líder da comunidade de São Raimundo. São Raimundo fica na região de Baixo Parnaíba, no estado de Maranhão, Brasil. Por ser uma região de terras férteis e muita água, a mesma sofre de ataques constantes do agronegócio da soja e do eucalipto, o último representada pela empresa Suzano Papel e Celulose, um dos maiores produtores de celulose e papel do Brasil. A Suzano já conseguiu se apropriar de vários territórios das comunidades tradicionais na região. Mas no meio do avanço dos monocultivos, a comunidade São Raimundo resiste até hoje. Conversamos com a Francisca sobre o que representa saúde para esta comunidade que conseguiu manter seu território e a floresta do cerrado, sobre como o eucalipto e o agronegócio tem afetado isso e o papel que as mulheres exercem na liderança da comunidade.

Você poderia dizer o que tem de importante aqui que garanta a saúde da sua comunidade, entendendo a saúde de forma ampla, abrangente?

Aqui em São Raimundo, acredito eu, nos temos de tudo um pouco para garantir uma saúde de qualidade aqui na comunidade. Uma das coisas principais que nós não temos aqui é o eucalipto e isso a gente já tem na cabeça que isso não é, que isso não traz saúde. Então, saúde é ter uma floresta preservada, ter os animais; saúde é ter uma água de boa qualidade; saúde é a gente olhar para, é ver a beleza natural que nos temos, isso para nos é saúde. Saúde é uma reserva permanente na beira do rio, bem verde, bem preservada pela comunidade. Então tudo isso para nos é saúde. Saúde é nosso cerrado verde, nosso cerrado florido, de pequi, de bacuri, de plantas medicinais. Saúde é ter um grupo de mulheres na liderança, na frente, porque elas têm uma visão diferente de alguns homens, elas tentam manter um jeito melhor de trabalhar com as outras mulheres, de conquistar elas, de ter uma forma carinhosa de trabalhar. Então tudo isso para nos representa saúde.

E o que acontece aqui na região que ameaça a saúde na comunidade

Uma das coisas que acontece aqui na nossa região, principalmente, é o eucalipto porque eles trazem um tipo de produto que polui o ar. Ultimamente, algumas comunidades aqui da nossa região também, a gente acabou com tempo vendo que uma febre que dava nas crianças, uma gripe, uma virose, uma diarréia; era gente, os animais morrendo. Então isso a gente começou com tempo perceber, que isso veio com a poluição do agronegócio desses empresários que trazem o agronegócio para cá, para nossa comunidade, com essa imenso avanço do eucalipto.

Qual é o mal que eucalipto faz especificamente sobre as mulheres ¿Você identifica impactos que só dá nas mulheres?

Para nos aqui, se isso acontecesse um dia, afetaria muito, principalmente as mulheres. ¿Porque? Por que a gente tem um projeto de plantação de bacuri [fruta típica do bioma do cerrado nesta região do Brasil], e porque a gente tira um pouco do sustento da comunidade do bacuri de dezembro até março para gente afetaria muito porque os homens vão para o roçado e normalmente quando eles estão lá no roçado, fazendo essa parte, as mulheres estão no cerrado. Então numa questão de 30 minutos, vão lá para o cerrado, colhe o bacuri, e as vezes não tem o que comprar. Quando não tem dinheiro para comprar, já tira polpa de bacuri, já vai para o mercado, compra o peixe e a carne, já alimenta os filhos. Então afetaria muito, a questão do eucalipto, e com o avanço do eucalipto a comunidade onde tira seu sustento do cerrado, atrapalha muito, adoece, a mulher fica doente mesmo, sem saber o que fazer.

¿O que você diria para uma comunidade para tentar se curar desta “doença” que se chama eucalipto?

Eu diria para essas comunidades manter essa mesma posição que São Raimundo mantém até hoje, de resistência, de união, de buscar aliados, de buscar parcerias, de se unir. O passo principal é a união, e não aceitar de forma nenhuma as plantações de eucalipto na sua comunidade, fazer a mesma coisa que São Raimundo fez. No inicio quando o eucalipto quis chegar, São Raimundo se reuniu, umas duzentas pessoas da comunidade, jovens, adultos, crianças, grávidas, e a gente combateu, para não aceitar. Nunca consentemos de forma alguma para aceitar a plantação de eucalipto. E São Raimundo hoje continua sendo um exemplo de todas as comunidades no município de Urbano Santos, São Raimundo continua ser exemplo de resistência, e nossa posição é resistir, nossa posição é não ao eucalipto.

Aqui na comunidade que resistiu ao avanço da soja, do eucalipto, ¿qual foi a diferença de ter mulheres na liderança da comunidade?

Aqui em São Raimundo as mulheres fazem a diferença porque numa ação, as mulheres sempre estão na frente, isso faz uma diferença muito grande aqui. Como mulher na liderança, aqui já estou 8 anos na liderança, e agora tem outra mulher na liderança, a gente tem um jeito diferente de trabalhar, de incentivo, de coragem, como mulher, como mãe. Não é fácil mas como a gente quer vencer, ver a diferença, os homens as vezes não tem aquela coragem que a mulher tem, aquela vontade, então as mulheres tomam a frente e levam adianta a luta. Não deixa acabar, porque não tem um homem que quer. E nos incentivamos as outras mulheres. Porque o que a gente observa é que os homens se sentem cansados, e nos mulheres não, a gente quer mais, nos queremos ver a diferença, então a gente leva a luta adianta, e a gente tenta repassar para as outras companheiras o incentivo e nos temos companheira aqui corajosa, inclusive eu tenho um grupo de 8 mulheres, nos temos uma pequena roça ali, de plantio de feijão, nos estamos com irrigação para ser instalada, e a gente veio de um debate, fizemos convite para alguns homens, não quiseram, então nos mulheres levamos isso adiante e está dando certo, então nos somos fortes.