Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais

Equador: pronunciamento em defesa da Pachamama e da vida

Com motivo do 15º aniversario do Instituto de Estudos Ecologistas do Terceiro Mundo e em homenagem a Ricardo Carrere (que foi coordenador do WRM até dezembro de 2011) foram realizadas na cidade de Quito, Equador, as “Jornadas de Pensamento Ecologista, Ricardo Carrere” (*)

Representantes de povos indígenas da região e redes e organizações ambientalistas nacionais e internacionais reuniram-se para contribuir com os conceitos e análises decorrentes de seu trabalho em diversos âmbitos de luta vinculados ao ambiente. Refletiu-se sobre como a partir do ecologismo foi possível integrar conceitos, vincular diferentes correntes e assuntos, identificar as relações de umas atividades com outras e destas atividades com o poder, bem como os vínculos existentes entre o ambiente, a sociedade, a cultura e a economia, partindo do reconhecimento da existência de valores ancestrais dos povos indígenas e sua relação com a Pachamama. Outra grande contribuição é gerar a informação decorrente dessas análises como apoio ao fortalecimento de comunidades e organizações em suas lutas.

A homenagem a Ricardo Carrere foi feita a todo momento visto que sua contribuição foi fundamental para o Pensamento Ecologista Internacional. Ricardo não apenas colaborou com seu pensamento mas também resgatou a necessidade de um espaço permanente de expressão que nos levou a escutar, pensar, refletir e fazer.

O “Pronunciamento em defesa da Pachamama e da vida”, reflexão final do encontro, reafirma a decisão de “mantermos a resistência para defender nossa vida como povos e nossos direitos territoriais. Só assim é possível um Sumak Kawsay, entendido como a vida em plenitude, em harmonia com a natureza”.

O documento afirma que “Viemos de um processo histórico de enfrentar o capitalismo, a modernização de desumaniza e mercantiliza a vida, e nos dias de hoje, a ‘revolução cidadã’, que com estratégias, discursos e bandeiras diversas pretendem continuar privando- nos de nossas fontes de vida. Não nos reconhecemos como pobres, porque se fôssemos pobres as não seríamos o alvo das empresas e do estado que objetivam tirar de nós a água, a biodiversidade, as riquezas naturais, que se tornaram as novas bases de acumulação capitalista sob os critérios da perversa ‘economia verde’ imposta como a nova forma de enriquecimento das empresas”.

“Em muitos de nossos povos, a palavra ‘pobre’ não existe. Em kichwa, por exemplo, foi adaptado o conceito da palavra ‘wakcha’, que literalmente significa ‘órfã(o)’, pois para esse povo, pobre é aquele que não tem família nem comunidade, e portanto não tem como aplicar a complementaridade, a solidariedade e a reciprocidade, porque se transforma em individualista”.

O documento final aponta, entre outras coisas, que: “Quanto aos ‘serviços ambientais’ rejeitamos a intenção de reduzir a natureza e suas funções a ‘recursos’ e ‘serviços’. Sabemos que a língua é outro mecanismo de dominação e imposição. Novamente, com base em nossas culturas, nas quais essas noções não existem, não aceitamos tais palavras: a Pachamama não é um recurso e não presta serviços. Como diz Taita Lorenzo Muelas, do povo Guambiano- Misak da Colômbia: ‘O Direito Maior indígena originário é legado de nossos antepassados; é imprescritível, inalienável e intrasnferível e não está à venda em todo o continente’”

E explicitamente, a respeito da situação no Equador manifesta-se um categórico repúdio a: “qualquer pretensão de ampliar a fronteira petroleira no país; e de forma particular no Parque Nacional do Yasuní, bloco ITT, 31 e campo Armadillo- territórios indígenas e dos povos em isolamento voluntário. Acreditamos na iniciativa de manter o petróleo subterraneamente como o primeiro passo rumo a um país e um mundo pós- petroleiros. Não é pelo dinheiro que defendemos o Yasuní e outros lugares ameaçados, senão porque estamos cientes de todo o prejuízo que ocasiona a exploração petroleira em todas suas fases. Para as regiões já afetadas solicitamos um processo de reparação integral e o cancelamento do Complexo Petroquímico da Refinaria do Pacífico.

Manifestamos nossa solidariedade com os irmãos e irmãs que foram criminalizados, despejados, reprimidos por defender a água, suas terras e territórios, com o uso de mecanismos ilegais e da força pública. Com isso, busca- se intimidar para silenciar as vozes que se opõem a esse modelo. Não entendemos como podem ser tachados de terroristas aqueles que defendem sua própria moradia, aqueles que defendem nossa Mãe.

Repudiamos os fatos de violência e despejo ocorridos em Río Grande (Manabí), por causa da construção de uma barragem, e na comunidade Topo (Tungurahua), reprimida por fazer viável uma hidrelétrica na qual um poderoso grupo econômico tem interesse. De igual forma rejeitamos a chantagem exercida sobre o Povo Secoya por causa de uma história marcada pelo petróleo, as plantações de dendezeiros, os serviços ambientais e inclusive a militarização em nome da conservação.

Reprovamos todo projeto extrativista e de monoculturas industriais que perturbem os direitos da natureza. Exigimos a saída dessas empresas.

Manifestamos nossa solidariedade com todos os parceiros e parceiras afetados, porque partilhamos um mesmo espírito de luta e resistência. Acima de qualquer acordo e convênio imposto sobre os povos, só resta continuarmos o caminho da resistência para defender os territórios, exercendo os direitos consagrados na Constituição e instrumentos internacionais como o Convênio 169 da OIT e outros que protegem os direitos humanos e da natureza”.

Finalmente, anuncia-se que: “Nossa luta é em defesa da vida, por isso é sagrada e não é violenta. Continuamos, após tantos séculos, sendo custódios da Pachamama com suas florestas, paramos, rios, manguezais… Por isso somos qualificados de selvagens e ignorantes, para justificar a intervenção ‘civilizadora’ e ‘modernizadora’. Nas palavras de [Eduardo] Galeano, ‘neste mundo, a palavra e o fato poucas vezes se encontram, e quando o fazem não se cumprimentam’. Nós todos queremos, assim como fizeram sempre nossos povos, continuar quebrando essa fragmentação, vivenciando e praticando o Sumak Kawsay, não só como palavras bonitas, mas em complementaridade, solidariedade e reciprocidade tanto entre nossos povos quanto com a sagrada terra, e resistindo. Nossa proposta política é construir um poder de todos os povos pra defender a Vida em plenitude”.

(*) O encontro, convocado pela Rede de Ecologistas Populares e o Instituto de Estudos Ecologistas do Terceiro Mundo, foi realizado em Quito, Equador, nos días 17 e 18 de novembro de 2011. O Pronunciamento final pode ser acessado na íntegra em : http://wrm.org.uy/paises/Ecuador/
Pronunciamiento_en_defensa_de_la_Pachamama.html